HISTÓRIA LONGA E INTERMINÁVEL
LIVRO III – Rio de lágrimas
Assim como é impossível descrever
com palavras uma bela pintura
tanto mais transmitir a emoção
que ela propicia.
Como dizer da gente que povoou
um momento especial da vida
do lugar que me habitou
e que ainda mora em mim
como a casa da infância.
A casa da minha vida nunca foi minha.
Sequer era de quem nela morava.
A fachada estreita na avenida disfarçava
o quanto ao comprido era enorme.
Duas janelas para a rua,
de guilhotina à frente,
com portadas que abriam para dentro,
pintadas em cor gelo.
À direita a porta estreita, de duas folhas.
Durante o dia, sempre abertas.
Ao cair a tarde, a portada da esquerda se fechava.
À noite era acessível ao puxar da tramela.
O interior da casa ficava a um passo
de quem por ali passava.
Sobre a porta, a placa que indicava
a casa era uma janela para o mundo,
de onde as vozes se lançavam
para onde se chegavam.
As portas de dentro sempre abertas.
Água fervente no fogão,
um pouco de pó de café derramado sobre a bancada
O cheiro do pote de plástico já gasto.
Duas garrafas térmicas:
Café forte, café fraco,
Sempre doce, muito doce
Dentro de uma bandeja
Com uma lâmina d’água
Contra o ataque das formigas.
Um armário na parede.
A imagem de uma preta de dentes brancos sobre a pia.
Descia-se pelos 3 degraus ao quintal,
Ao lado do quarto do avô
Os nomes escritos no cimento
1968. Os tios adolescentes, o primeiro e o segundo sobrinho.
Chegava-se à horta,
Junto ao muro na divisa com o quintal de dona Matilde,
Um canteiro de madressilvas
Sempre cheirosas,
Ou não seriam madressilvas,
Nunca mais vi daquelas flores
E nem senti o seu perfume
Um plano inclinado suave de cimento,
Ao lado os canteiros da hora,
Junto ao muro de trás, mais flores,
Muitas, que não seu nomear.
No canto, uma parreira estendida
Sobre a rede de arame
Uvas verdes, amargas,
O espaço sombreado,
Úmido, cheio de avencas,
Vasos pendentes com samambaias, chifres de veado,
Fetos brotando nas frestas de cimento.
(Lembro-me de um dia, ela era pequena,
Ofereceu-me o pão que trouxe da cozinha,
Parecia uma pequena bruxa, de pele enrugada,
Recusei e levei um pito da Dinha.)
Sob a casa, visto através da porta de madeira aberta
O porão escuro, misterioso, cheirando a roupa lavada
E ferramentas. Bacias enormes, cestos com pregadores,
Enxadas e um ancinho encostados à parede,
Nas prateleiras de madeira apodrecida,
Dezenas de pás, martelos, serrotes,
Cheirando a ferrugem e zimbro.
Parecia não ter fundo, de tão escuro à frente
Tanto que despertava o pavor de ratos e monstros,
Teias de aranha se formavam nas paredes do meu medo.
Mais um lance de escada, ao pé da rampa,
Chegava-se ao vão quadrado em frente às duas portas
A que dava para o porão, quase sempre aberta
E o portão de lata, fechado com tranca.
Abre-se ao quintal, enormidade,
À vista é um mundo em seu resumo,
À direita uma mureta de ripas de bambu,
Frágeis, mas reforçada pelo mato que cresce à volta,
Ouvem-se ruídos, pássaros, insetos,
Borboletas passam à frente enquanto se caminha,
Sobre o chão de barro batido, folhas de várias formas
Ao longo de todo terreno, várias árvores frutíferas:
Limoeiro, pitangueira, pé de laranja, jabuticaba,
Mamona, outro limoeiro, romã,
abacateiro, quatro mamoeiros, um macho,
mais duas laranjeiras a seguir.
À frente, o barranco, sob as árvores enormes (três mangueiras,
Talvez outro abacateiro), desliza suavemente
Sob uma camada de folhas mortas
em direção ao córrego sujo.
À margem uma fileira de bananeiras,
Como fazendo um anteparo a proteger da queda,
Do cheiro de esgoto.
À direita, separando o quintal da rua, o muro de alvenaria.
E nele, havia um buraco,
Redondo, do tamanho de uma mão fechada,
Quem olharia por ele
Quem será que o criara?
II
De manhã muito cedo o menino empurra a porta
da cozinha, onde ficara o cão doente,
Quis ter dormido ali com ele.
A porta estanca quando toca o corpo rígido,
Estava morto o cão que tanto amava.
Viu parte do dorso preto e branco
Do bicho que morrera ao pé da porta.
Voltou-se em pratos ao quarto
Em soluços cheio de dor
de remorso,
de ter deixado ali sozinho o amigo,
De não ter vigiado para espantar a sua morte.
Tinha velado até tarde da noite,
quando o sono o venceu.
Deixou o animal bem embrulhado numa manta
Na caminha em que dormia
dentro de casa desde que adoecera.
O seu olhar reivindicava algo
que não era capaz de adivinhar.
Parece que sentia a falta que faria
Ao menino, tão miserável, tão sozinho.
Escutou os movimentos do acordar de outras pessoas,
atravessa a sala a mãe chorosa
em direção ao quarto e anuncia:
não deves ir à aula nesse dia.
Também não foi nos dias seguintes,
permanecia inconsolável,
lamentava aquela desgraça,
A perda irreparável do amigo.
Chamavam-no a sair,
mas o menino não se consentia nenhuma alegria
diante da tristeza que devia àquele
seu mais verdadeiro amigo...
Ocorreu-lhe perguntar
o que tinham feito ao corpo do cão,
já sumido.
Como num ato de heroísmo
o pai, que guardava silêncios,
Seco, que fazia questão de demostrar indiferença,
E até debochar de alguns amuos,
Levara o corpo, com pás e ferramentas,
Abriu-lhe a sepultura e enterrou o cão no campo.
Nos dias que se seguiram,
O pai pôs-se ao lado da sua cama
Permanecia em silêncio
Enquanto o menino chorava
desolado.
Lá fora havia um mundo
de seres sem compaixão.
Rogério acorda cedo e ordenha as vacas,
O leite sai quente das tetas magras,
O líquido gordo e amarelado
Vai para os galões de metal enormes
E daí para a carroça de dois cavalos.
Rogério parte para a cidade,
O seu perfil imponente percorre as ruas,
Sabe exatamente onde para.
Na casa da avenida grita à porta,
E vai entrando familiar
Aspásia o recebe no corredor,
Dica prepara as leiteiras
Das conchas caem de vez a vez
Três litros de leite para aquela casa.
Dica põe o leite a ferver
E segue a lida, oferece o café, que Rogério aceita,
Recusa mas depois aceita e se senta
Enquanto chega Francisco gozador
A chamá-lo galã como os de novela
Dica aumenta a chama
O leite segue no lume
Nininha puxa conversa sobre a chuva
Zé Serafim entra propondo apostas
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