sábado, 2 de maio de 2026

ENCICLOPÉDIA
Na sala, a estante era o item mais espaçoso, a madeira escura, quase negra, ocupando toda a parede. Aquela peça do mobiliário familiar era a mais imponente, com seu conteúdo formava o conjunto mais vistoso da casa e era muito mais ruidosa do que as pessoas. Eu preferia a ilusão de que as coisas durassem, preferia que ela estivesse lá até hoje. Não está. A sua presença marcou para sempre a minha vida, como se não houvesse outro destino que a busca pelo saber e pela beleza.
Por trás das portas, as caixas com a lembranças de família, as pilhas de álbuns de fotografia, pastas com documentos, incluindo as certidões de matrimônio e de nascimento. Alguma desordem, cadernos, trabalhos de escola dos anos passados. A carta que meu avó escreveu para se despedir (dobrada) e a cópia da que o pai dele escrevera como testamento de vida (emoldurada em vidro).
Nas prateleiras, de um lado, uma fila de LPs dispostos em pé, sob o aparelho de som; o telefone, catálogos, um manual de eletricidade e outro de mecânica de carros. Algumas coleções de livros: obras completas de Érico Veríssimo, Jorge Amado, Machado de Assis; “Grandes obras da literatura universal”; volumes de ensino de inglês para crianças.
E, enchendo quase todo o espaço, elas; lindas e enormes, as esfíngicas enciclopédias. ‘Exitus’, de Ciências, ‘Delta-Júnior’, cheia de ilustrações curiosas, a terrível ‘Medicina & Saúde’, e a ‘Barsa’, a mais extensa com seus dezesseis volumes altos, com aquelas lombadas vermelhas, desafiadoras, a pura maravilha que, eu acreditava, continha todo o conhecimento do mundo.
BARSA 1967
Havia um volume extra sobre aquele ano. Chuvas e enchentes pelo país. Em fevereiro uma pedra rolou morro abaixo e destruiu dois edifícios em Laranjeiras. Minha mãe contava. Havia presenciado o acontecimento registrado na enciclopédia. Estava na casa da tia, no Rio de Janeiro. Aos dezesseis, não permitiram que fosse à festa de quinze anos num dos prédios destruídos naquela noite de temporal. Mais de trezentas vítimas, incluindo a debutante e convidados. Horas de angústia sem notícias dos familiares, sirenes e gritos na rua General Glicério. Havia imagens naquele volume. O único que não gostava de folhear. Três anos depois, ela se casava. Por pouco, eu não teria existido.
EFEBO: Era mais que uma entrada, uma viagem excêntrica a um conceito incompreensível, uma visão naquela época rara: um corpo masculino com toda nudez à mostra, a foto de uma estátua grega com legenda e ao lado o texto que explicava que na Antiguidade os homens respeitados desejavam os homens jovens. Não era um qualquer mancebo, parecia uma imagem da virgem às avessas, pois por trás da candura, da aparente frieza calcária do mármore, ela despertava em mim uma inquietude febril e proibida. Eu a via repetidas vezes, temeroso que alguém percebesse, ou de que a marca da repetição na página me denunciasse. Havia uma sonoridade doméstica naquela atípica palavra, eu relia e não entendia bem o que representava a estranha personagem, apenas constatava o poder atrativo que tinha.

FUSOS HORÁRIOS: Parecia um pouco confuso, o globo terrestre fatiado em gomos. Como uma mexerica a girar em seu próprio eixo, à luz do abajur quente e imenso do sol, alternando a claridade e o lusco-fusco. O dia nasce antes no Oriente, a noite daqui é a manhã no outro extremo. No momento antes do sono, quando a realidade da solidão me abatia, ser o único homem de olhos abertos; era esse o medo que eu tinha. Às vezes, temporariamente me consolava algum ruído de gente vindo da rua, um assovio, um grito, ou da cozinha, um copo sendo enchido d'água. A Terra girava e isso não era nada. O que importava então que eu não estava mais tão sozinho; havia sempre alguém de olhos abertos e eu não era o único no mundo a estar desperto.
GÊISERES: Busquei-os por um trabalho de escola. Jatos de água fervente que brotam em intervalos contínuos do solo em esguichos perigosos, bizarro e curioso espetáculo, capaz de matar um homem. Evidência do além da existência do caldeirão infernal de magma do centro da terra; canais do demônio, primos dos vulcões ativos, mas menos familiares, que eu nunca veria, no Chile ou na distante Islândia. Ciências da natureza ou geografia, a mistura que se fazia era eu estar completamente neles. Provava parte de seu calor nas saunas e nunca perdi a esperança de encontrá-los quando cavava o quintal de casa, como também aspirava achar algum tesouro, escondido por um pirata.
SERES ABISSAIS: Era uma descoberta impressionante. Na profundidade dos oceanos, a existência inalcançável de regiões completamente escuras, onde animais estranhíssimos viviam. Como fantasmas, a única luz que conhecem é a que seus próprios corpos emitem. Abajures no reverso negrume da face da terra escondida do sol. Bioluminescência. Muito abaixo de onde chegam os submarinos, aquelas criaturas de aspecto monstruoso pareciam muito mais ameaçadoras do que as feras e os dinossauros já extintos. Estampadas na página as imagens de bocas viscosas enormes, dentes finos como espinhos, espetos saindo das nadadeiras e fios elétricos de pesca, iscas de luz que atraem presas para a sua insaciável fome. Para que os olhos que só podem enxergar a escuridão? Mostrei para meu amigo, que nunca deles havia ouvido falar. Como eram fascinantes, como são temíveis as distantes sempre estranhas outras formas de vida.

CÚMULOS: Corpos fofos, maciços suaves suspensos no azul do absurdo; copas claras decepadas das árvores que eu desenhava, acúmulo de contornos sobre contornos, redondos formatos mutantes, quanto mais céu se vê ao fundo, tanto mais brancos. Desfaz-se um mistério do alto, da morada dos anjos nunca vistos ao objeto que existe, com a forma que não se apanha. Inauguram-se outros mistérios, de um complicado ciclo além da vida: da umidade dos meus poros à superfície dos mares os vapores que sobem, do calor da terra que arrefece na frígida abóbada: os milagres da condensação, o desafio à lei da maçã, gotas a levitar, grande leviatã que se move no ar. Ainda que esteja também no líquido das minhas células, quisera alcançar seu núcleo e estar no meio delas nalguma viagem aérea. (Ver também Cirros, Estratos, Nimbos).

OS ASTROS: Havia a abóbada escura e as constelações, o paraíso da Bíblia e dos poetas. Por outro lado, havia o mundo novo dos corpos celestes — luas, sois e planetas. Descobri-o menino, no plano das páginas. Viajava horas a fio, fui astronauta por meses. De aniversário veio uma luneta. Via então a superfície rugosa da lua, a sua brancura perolada. Marte, vermelho, pequeno, aparecia já noite alta. Vénus vinha antes, brilhante, ao fim da tarde. Dez anos: o Halley passaria pela Terra. Um frenesi corria naquela idade.
Ainda hoje não acredito — nunca cheguei a ver o cometa.

O ATLAS DE ANATOMIA - Havia coisas a fazer com o corpo; descobri-lo como um tema de estudo. Esquadrinhá-lo desde fora, camada por camada, até o seu centro. O lado da frente, o que vemos, na primeira página; um homem adulto, em folhas plásticas, estampadas.
FIcava no final do último volume. Uma a uma, rebatidas, as páginas revelavam o que era o homem por dentro. Por baixo da pele, as cores. O vermelho dos músculos, a figura robótica, ainda meio viva. Os olhos eram os mesmos, mas ficavam assustadores, enormes sem as pálpebras. O pouco branco dos tendões, fáscias e ênteses, como rendas nas bordas de almofadas.
Eu seguia os nomes, em latim, majoritariamente intuíveis, e estranhava o anômalo acúmulo de consoantes na 'larynx'. As lâminas transparentes se seguiam, as cores tornavam-se variadas, veias azuis, artérias sanguíneas, grandes vasos; os decalques saltavam nas páginas; pulsava o coração nas vistas.
Os órgãos internos, personagens de um conto, os gêmeos pulmões limpos (e outros afetados pela fumaça); o circuito interno do alimento, o esôfago longo, o fole do estômago, as muitas voltas das tripas e o intestino grosso, felpudo e ornado de curvas, moldura do abdome e do esotérico omento.
A beleza da assimetria interna revelando o engano das aparências. À esquerda, o fígado, a víscera imperial, violácea gelatina, íntimo das visões da cozinha; por baixo a vesícula verde e perigosa. Do lado oposto, o sóbrio baço, como um par que não combina, e o pâncreas se insinuando por trás, espiga lânguida de enzimas.
Mais uma página, no oco do fundo, os feijões dos rins com cobertura (um mais alto que o outro) e os dois canais em um "v" arredondado até a bexiga. Ao lado o recorte lateral na genitália, o canal por dentro do pênis pendente, tendo por baixo o bornal, com um ovo.
Na página seguinte, só a solidão dos ossos, madrepérola, o esqueleto. O crânio que usavam para representar a vanidade da vida nos quadros. Dentes, côndilos, reentrâncias. Era o desfecho macabro.
Não se retratava o dorso, o reverso que não vemos.
Mas depois, ainda havia a mulher. O corpo mais rechonchudo, menos camadas a esbater; destaque aos órgãos internos. Aqui a simetria perfeita no ventre, trompas pincelando os ovários, a pera invertida do útero e a uretra cortada pela frente, bem como o canal da vagina. Na página seguinte, o abdome gravídico exposto, um bebê completo, em avançado estado de gestação.
Eram as imagens que mentalmente repetia, e tentava reproduzir em desenhos, cada órgão separado em uma página, num caderno. Daquela época a ideia de me tornar médico. Curar o corpo, quando o seu esplendor era a minha doença.

 O priminho mais novo só aceitava o bolo no prato, para comer de garfo. Não pegava com a mão. Espantados, admirávamos aquela excentricidade. Minha tia achava lindo, embora aquele não fosse um hábito na nossa família. Aprendeu com o pai; gente da capital, de tratos mais refinados. Quando vinham de férias traziam coisas diferentes, gomas com formato de bola, balas com sabor de fruta rasteira, brinquedos novos, gírias e manias.  Gostava de conhecer as novidades, mas com aquilo eu não me conformava. Não conhecia prazer maior que aquele domínio: o bolo na travessa, sobre a bancada da cozinha. Nem dali se tirava a primeira faca que o cortara. Coberto com o pano. Tudo pronto, operação facilitada; bastava passar, cortar um pedaço de tamanho na medida da fome ou da esganação do momento. Segurá-lo fofinho na mão. Abocanhar a fatia com dentes macios e lábios polpudos, esticando o pescoço para apanhar todo o esfarelo na boca.  Interpor um instrumento àquele ato tão deliciosamente banal era matar o seu prazer ao meio. O normal era os forasteiros da cidade se ajustarem à nossa vida provinciana. Rua às portas sempre abertas, pouca vigilância e regras. De roupas velhas, pés descalços, eles ficavam mais sujos que nós ao fim do dia, esbaldados de liberdade.  Sempre havia sido assim. O pequeno subvertera o costume. Gostava de ficar em casa, todo limpinho, em frente ao sofá vendo televisão. Mal despregava os olhos da tela, cara de abobado, todo mansinho de cabelo arrumado para o lado. Nem o sapato tirava.  E agora essa, a do bolo. Tentamos convencê-lo. Ele que acostumava. Que nada! Vinha com o bolo para a sala segurando as bordas do prato das duas mãos, o garfinho preso no polegar esquerdo. Minha mãe defendeu o sobrinho. Era mesmo mais higiênico. As mãos, por mais que lavadas, tinham micróbios que iam dar à comida tocada, e daí para o guto adentro, causar doenças. O menino arregalou os olhos. “Micróbios?!?” A descrição do organismo invisível e a pequena narrativa de seu trajeto das mãos à boca e daí para dentro do corpo despertou nele uma enorme impressão. Apavorado, o menininho buscava reordenar o seu mundo subitamente perturbado. Então, havia inimigos perigosos por todo o lado? em toda e qualquer superfície que se tocasse? na própria superfície do corpo? Estávamos constantemente ameaçados de invasões invisíveis e mortíferas? Como se defender de ameaças tão terríveis? O seu desespero era tão visível e angustiante, que ele disparava aquela série de perguntas numa sequência rápida e desesperada, que nos despertou uma malícia irresistível. Tripudiamos. Descrevemos todas as doenças que conhecíamos, com os seus detalhes mais escabrosos e escatológicos, dedos que se soltavam de mãos leprosas, bolos de vermes entupindo a passagem pelos intestinos, causando caganeiras intermináveis que esvaziavam todo o sangue até a pessoa ficar seca, insetos que inoculavam germes que iam para o cérebro e causavam tremor e febres capazes de derreter os miolos. Por mais que minha mãe tentasse minimizar e desmentir os nossos exageros, cada vez mais transtornado o menino se mostrava. Quis ir imediatamente para o banho, nas horas seguintes recusava tudo o que lhe oferecíamos, não tocava os brinquedos e nem mesmo no sofá se sentava para assistir a TV. Continuava com as indagações exasperadas, que agora já respondíamos de forma mais atenuada, sem que essa nossa mudança fosse capaz de tranquilizá-lo.  O estrago estava feito. Levamos, claro, uma grande sova e estivemos nos próximos dias cuidando para que aquela situação fosse esquecida pelo menininho, cheios de pena e remorsos pela nossa inconsequente desforra.

 

Prazer, Proust

I

I
Não havia reparado no rapaz até quando ele começou a falar de Proust. Dávamos início aos seminários anuais e, a partir do momento em que a palavra lhe foi dada, tudo nele se transformou, como um animal acanhado que se eriçasse e exibisse as mais belas penas durante a corte. O seu entorno adquiriu uma atmosfera nova, como se um halo de claridade o envolvesse, ou se algum encanto houvesse de repente tornado mais interessante a sua figura, mais viva a sua presença e, até mesmo as suas vestes, mais belas e suntuosas.
Enquanto ele falava, parecia que todo o ambiente se tornara obscuro, restante, só a sua flama importava. Da sua boca as palavras saíam suaves, mas contundentes, causando calafrios instantâneos quando fazia pausas antes das citações lidas com uma dramaticidade judiciosamente medida. Os seus lábios se movimentavam com uma vagareza, quase não se moviam, no entanto, as palavras saíam nítidas, como uma melodia de ave canora que alentava, causando-me um entorpecimento que comecei a julgar embaraçoso, especialmente quando o ouvia pronunciar as sílabas mais agudas.
Sequer podia perceber sobre o que falava, escutando aquele canto enquanto as suas mãos se movimentavam à frente do tronco, alternando-se uma e outra, firmes, em um bailado mirífico e absorvente.
Escondi os meus braços sob a mesa para que ninguém percebesse as variações da minha pele, que parecia ter sido tomada de súbito de uma torrente gélida, estremecendo em arrepios.
Até então, detestava a baixeza daquele fascínio pela cultura francesa que predominava no nosso meio, chegava mesmo a recusar a usar a lingua, evitando os estrangeirismos prevalentes no campo em que nos dedicávamos, privilegiando transpor para o português os termos que utilizava, sempre que possível, aproveitando toda a ocasião para demonstrar o meu desagrado com a atitude indigna da maioria. Por isso mesmo, eu escolhera como tema do meu trabalho uma obra local. Afinal, mesmo um famoso crítico já dissera, se não somos nós próprios a se debruçar sobre os nossos valores, quem mais se proporá a fazê-lo?
Apesar de intensa, parecia-me que toda aquela impressão de desfaria a qualquer momento. Conclui que ela duraria enquanto durasse a sua fala; porém, terminada a sua participação, eu segui perturbada, custava-me prestar atenção à fala dos outros colegas, só pensava em ir à casa e iniciar imediatamente a leitura para mim inédita de Proust.

II

Supunha que aquele nome familiar integrasse a estante de livros da biblioteca da casa dos meus pais. Não estava de todo equivocada. Havia um volume de Os prazeres e os dias, antigo, de capa dura, de uma editora extinta. Não era aquele que me interessava. A obra a que o trabalho do colega se referia era Em busca do tempo perdido, um calhamaço dividido em sete volumes na biblioteca pública que frequentava.

Queria avançar o máximo que conseguisse na leitura até a próxima sessão quinzenal em que discutiríamos os nossos trabalhos. Não cheguei à metade do primeiro volume. A cada longa frase a minha atenção se desviava a imaginar que espécie de reações lhe teria causado. A paixão daquele rapaz que a princípio me pareceu tão sem interesse tinha causado em mim uma tal impressão que não podia evitá-la. Todo o meu mundo passou a orbitar em torno dele.

Desde o meu caminho para a faculdade ocupava-me em me preparar para o momento em que iria encontrá-lo como já acontecera de outras vezes antes de chegar ao edifício principal. Estremecia ante a possibilidade de tornar a se passar o que antes havia sempre sido uma situação banal. Tentaria disfarçar o quanto havia pensado nele, com o cumprimento costumeiro e trivial, mas na verdade, sabia que queria mais que isso. Queria que ele soubesse do meu interesse e, oxalá, que ele se alegrasse ao percebê-lo, quem sabe confessando que me amara desde o primeiro momento que me vira e que os nossos encontros nas estações do coletivo ou nas estradas pelo jardim que dava acesso ao prédio não eram casuais, mas que ele ansiava por isso e os provocava, esperando que finalmente eu respondesse de uma forma diferente, como agora se passava.

III.

O encontro esperado não aconteceu até a seguinte sessão de discussão de trabalhos. Como éramos de anos diferentes, os horários das nossas matérias não eram coincidentes. Via com frequência os outros alunos nos intervalos entre as aulas, nas pausas para o café no bar ao lado do edifício ou nas conversas em roda em torno de um banco no jardim central.

Naquelas duas semanas, a minha expectativa em vê-lo fazia perceber uma ausência que antes me era indiferente. Quando disfarçadamente perguntei à colega, ela me fez saber que só raramente ele saía do departamento nos intervalos das aulas. Preferia permanecer no gabinete de seu orientador dedicando-se à leitura ou entregando-se a discussões filosóficas com um grupo de introvertidos.

Eu nunca tinha sido predisposta a arrebatamentos amorosos. Até então, todas as minhas paixões haviam sido guiadas por evidências reais da sua concretização. Não concebia o amor não correspondido dos poetas românticos, nem a cortesia pelo inalcançável dos trovadores medievais e muito menos a castidade de um religioso apaixonado. Surpreendia-me a perder-me em devaneios antes inconcebíveis para uma mulher prática e emancipada. Imaginava-o como um neurótico inibido a quem eu libertaria das suas amarras, permitindo a revelação do homem ardoroso que eu entrevira durante a sua palestra.

A ideia de que ele me corresponderia era quase certa; eu sofria, no entanto, presumindo uma série de passos necessários à nossa conjunção. Teria de encontrar as palavras certas e não o afugentar com a intrepidez da minha decisão.  

Na véspera do seminário quinzenal, ensaiei a abordagem pois que não esperaria a iniciativa dele. A deixa estaria na própria preparação do meu trabalho, em que consegui incluir uma citação d’O prazer da leitura. Era uma arriscada e arrojada estratégia que se revelaria muito apropriada, não fosse um pequeno detalhe.

 O QUE TERÁ SIDO DE SHAKESPEARE? 

 Na infância tudo se passava com uma naturalidade impensável na luta da vida adulta de agora. Ao ingressar no primário, transferiram-me de escola. Anúncios de mudanças como esta, que hoje me causariam ansiedades enormes, eram bem vindas como o prenúncio de novidades infalívelmente venturosas. Pelo contrário, a única aflição possível naquela ocasião vinha de uma voraz vontade de saber. Tinha especialmente uma grande ânsia de aprender a ler e descobrir mais daquele misterioso prazer que ocupava longas horas do tempo que meu pai passava em casa. Outros detalhes da vida escolar não me preocupavam; novos colegas, uma nova professora, uma outra rotina à qual rapidamente me adaptei. Não sei dizer em que tempo ocorreu a mudança íntima que me tornou um tímido e tirou de mim aquela segurança que também era o meu encanto de menino. Logo alcancei ali uma sensação de domínio e familiaridade que facilitava o meu desempenho. A professora era experiente e meiga. Ainda me lembro da forma cuidadosa como explicou que, apesar de lhe chamarmos tia, tinha uma posição e um encargo diferente daquele das irmãs de nossos pais (ela só era efetivamente tia de uma das alunas da sala). Reencontrei alguns colegas da escola antiga, um infantário privado, e conheci novos rostos com trajetórias bem distintas. Era uma escola pública. Na minha pequena cidade, o meu círculo de convivência era até então restrito aos filhos de amigos de meus pais ou às crianças cuja condição social nos aproximava. Muitos estavam ali. As duas meninas por quem fui apaixonado, o amigo que rivalizava a atenção delas comigo, o vizinho com quem desde sempre eu brincara. Conheci o colega sonhador que se via nas histórias fantásticas do cinema; o Vanderlei, rapazinho da Estação que atraía a admiração por copiar do quadro-negro mais rápido que todos; a ruiva Gerusa cujo nome mais me parecia um adjetivo; o menino grandalhão que vinha da zona rural e roncava de boca aberta com a cabeça deitada sobre os braços na carteira. Outros que se tornaram amigos mais chegados depois, e tantos de quem nunca mais tive notícia. Dentre estes, o Shakespeare. Era dos mais baixos da sala, por isso, ficávamos próximos na fila do recreio. Creio que quase não convivíamos fora da escola. Não pertencia ao meu círculo de amigos, mas fotografias testemunham de que esteve em uma das minhas festas de aniversário. Da janela de casa eu via com frequência passar para o bairro além da ponte, a sua mãe gorducha e morena, cuja descontração não deixava dúvida que não era da nossa cidade, de gente ressabiada e silenciosa. Do pai, eu não tinha notícia. Ele tinha o cabelo anelado como o meu, uma das muitas semelhanças que eu não percebia naquele tempo. As feições eram claramente mestiças, e a pele clara, de caboclice furtiva e esfumada. O rosto levemente anguloso, os lábios grossos e uma expressão que denotava bonomia, um constante contentamento apesar dos abusos que sofria, por se chamar Shakespeare e por destino. O seu nome causava uma estranheza que era convertida em zombaria. Desprezo ou troça, era a maneira imediata com que a cidade lidava com tudo o que não reconhecia. Soava-nos como “Sheik”, como os soberanos árabes, que era um nome muito usado para os cães, especialmente os pequenezes iracundos, que eram o frisson da época, repleta de Cheiques pelos quintais. Por isso mesmo, logo ele ganhou o apelido de “Cachorro”. Como imediatamente consentiu e mostrava até certa satisfação com a alcunha, mudou-se a maneira de tentar aborrecê-lo, imitando o ruído de um espirro quando se dizia o seu nome. Ele tinha uma natureza pacífica e não parecia que aquilo lhe causasse perturbação. Era uma época propícia aos ultrajes, em que cada qual já tinha muito cedo a noção do tipo de estatuto que cada ambiente lhe reservava. Quem o defendia das afrontas era a irmã, um pouco mais velha, da série seguinte, a Jacqueline, de pele mais morena e temperamento menos ameno que o do mano. Não me consta que alguém tenha alguma vez nos explicado de onde vinha o seu nome. E mesmo quando soube depois quem foi o dramaturgo inglês, não foi imediata a sua associação com o meu antigo colega, cujo nome continuava me soando como “Cheique”. O que me leva a escrever sobre ele foi um episódio que acaba por revelar um aspecto que só mais tarde pude reconhecer em mim, uma atitude diante do saber que determina grande parte do que fui e sou. Numa ocasião em que o tema da aula eram os animais, a professora ia perguntando a alguns alunos quais animais eles conheciam. Os questionados se esmeravam em listas de animais domésticos e selvagens, sempre procurando não repetir os que já haviam sido citados. Silenciosamente me preparava para o caso de a pergunta chegar a mim, evocando as figuras das enciclopédias que folheava em casa. Mas a questão calhou antes ao Shakespeare. E a sua resposta - “Conheço todos os animais” - causou-me uma surpresa inconformada. Como alguém poderia ter a ousadia de dizer conhecer todos os animais? Aquilo parecia-me um atrevimento tão despropositado... Ao mesmo tempo não podia conceber que a professora tivesse aceitado com tanta prontidão aquele desfecho. Minha indignação converteu-se no desafio de mentalmente imaginar uma espécie impossível para confrontar o meu colega. O assunto da aula mudou, entretanto, antes que eu pudesse irromper. Remoí aquela resposta até anos depois ter a certeza de que se tratava mesmo de um êxito inviável. No ano seguinte, mudaram-me novamente de escola. Perdi o contato com grande parte dos colegas do primeiro ano. Depois que Shakespeare desapareceu, alguém inventou a história de uma briga que nunca houve realmente entre mim e ele. Não sei qual foi a intenção de forjarem aquela animosidade fictícia e besta, talvez algum amigo que queria ter me compensado do déficit de agressividade com que sempre me portei. Teria sido meu único confronto físico na vida, que eu resolvera com um murro certeiro. Aquilo me elevava a uma coragem de ser bruto que eu nunca tivera. Assenti com a farsa, adotei como verdade aquela história, que cheguei a repetir para outras pessoas. Afinal, eu não era tão diferente de Shakespeare e todos precisam de uma certa dose de fabulação e auto-engano para viver.

ENCICLOPÉDIA Na sala, a estante era o item mais espaçoso, a madeira escura, quase negra, ocupando toda a parede. Aquela peça do mobiliário f...