CÚMULOS: Corpos fofos, maciços suaves suspensos no azul do absurdo; copas claras decepadas das árvores que eu desenhava, acúmulo de contornos sobre contornos, redondos formatos mutantes, quanto mais céu se vê ao fundo, tanto mais brancos. Desfaz-se um mistério do alto, da morada dos anjos nunca vistos ao objeto que existe, com a forma que não se apanha. Inauguram-se outros mistérios, de um complicado ciclo além da vida: da umidade dos meus poros à superfície dos mares os vapores que sobem, do calor da terra que arrefece na frígida abóbada: os milagres da condensação, o desafio à lei da maçã, gotas a levitar, grande leviatã que se move no ar. Ainda que esteja também no líquido das minhas células, quisera alcançar seu núcleo e estar no meio delas nalguma viagem aérea. (Ver também Cirros, Estratos, Nimbos).
sábado, 2 de maio de 2026
O priminho mais novo só aceitava o bolo no prato, para comer de garfo. Não pegava com a mão. Espantados, admirávamos aquela excentricidade. Minha tia achava lindo, embora aquele não fosse um hábito na nossa família. Aprendeu com o pai; gente da capital, de tratos mais refinados. Quando vinham de férias traziam coisas diferentes, gomas com formato de bola, balas com sabor de fruta rasteira, brinquedos novos, gírias e manias. Gostava de conhecer as novidades, mas com aquilo eu não me conformava. Não conhecia prazer maior que aquele domínio: o bolo na travessa, sobre a bancada da cozinha. Nem dali se tirava a primeira faca que o cortara. Coberto com o pano. Tudo pronto, operação facilitada; bastava passar, cortar um pedaço de tamanho na medida da fome ou da esganação do momento. Segurá-lo fofinho na mão. Abocanhar a fatia com dentes macios e lábios polpudos, esticando o pescoço para apanhar todo o esfarelo na boca. Interpor um instrumento àquele ato tão deliciosamente banal era matar o seu prazer ao meio. O normal era os forasteiros da cidade se ajustarem à nossa vida provinciana. Rua às portas sempre abertas, pouca vigilância e regras. De roupas velhas, pés descalços, eles ficavam mais sujos que nós ao fim do dia, esbaldados de liberdade. Sempre havia sido assim. O pequeno subvertera o costume. Gostava de ficar em casa, todo limpinho, em frente ao sofá vendo televisão. Mal despregava os olhos da tela, cara de abobado, todo mansinho de cabelo arrumado para o lado. Nem o sapato tirava. E agora essa, a do bolo. Tentamos convencê-lo. Ele que acostumava. Que nada! Vinha com o bolo para a sala segurando as bordas do prato das duas mãos, o garfinho preso no polegar esquerdo. Minha mãe defendeu o sobrinho. Era mesmo mais higiênico. As mãos, por mais que lavadas, tinham micróbios que iam dar à comida tocada, e daí para o guto adentro, causar doenças. O menino arregalou os olhos. “Micróbios?!?” A descrição do organismo invisível e a pequena narrativa de seu trajeto das mãos à boca e daí para dentro do corpo despertou nele uma enorme impressão. Apavorado, o menininho buscava reordenar o seu mundo subitamente perturbado. Então, havia inimigos perigosos por todo o lado? em toda e qualquer superfície que se tocasse? na própria superfície do corpo? Estávamos constantemente ameaçados de invasões invisíveis e mortíferas? Como se defender de ameaças tão terríveis? O seu desespero era tão visível e angustiante, que ele disparava aquela série de perguntas numa sequência rápida e desesperada, que nos despertou uma malícia irresistível. Tripudiamos. Descrevemos todas as doenças que conhecíamos, com os seus detalhes mais escabrosos e escatológicos, dedos que se soltavam de mãos leprosas, bolos de vermes entupindo a passagem pelos intestinos, causando caganeiras intermináveis que esvaziavam todo o sangue até a pessoa ficar seca, insetos que inoculavam germes que iam para o cérebro e causavam tremor e febres capazes de derreter os miolos. Por mais que minha mãe tentasse minimizar e desmentir os nossos exageros, cada vez mais transtornado o menino se mostrava. Quis ir imediatamente para o banho, nas horas seguintes recusava tudo o que lhe oferecíamos, não tocava os brinquedos e nem mesmo no sofá se sentava para assistir a TV. Continuava com as indagações exasperadas, que agora já respondíamos de forma mais atenuada, sem que essa nossa mudança fosse capaz de tranquilizá-lo. O estrago estava feito. Levamos, claro, uma grande sova e estivemos nos próximos dias cuidando para que aquela situação fosse esquecida pelo menininho, cheios de pena e remorsos pela nossa inconsequente desforra.
Prazer, Proust
I
II
Supunha que aquele nome familiar
integrasse a estante de livros da biblioteca da casa dos meus pais. Não estava
de todo equivocada. Havia um volume de Os prazeres e os dias, antigo, de
capa dura, de uma editora extinta. Não era aquele que me interessava. A obra a
que o trabalho do colega se referia era Em busca do tempo perdido, um
calhamaço dividido em sete volumes na biblioteca pública que frequentava.
Queria avançar o máximo que
conseguisse na leitura até a próxima sessão quinzenal em que discutiríamos os
nossos trabalhos. Não cheguei à metade do primeiro volume. A cada longa frase a
minha atenção se desviava a imaginar que espécie de reações lhe teria causado.
A paixão daquele rapaz que a princípio me pareceu tão sem interesse tinha
causado em mim uma tal impressão que não podia evitá-la. Todo o meu mundo
passou a orbitar em torno dele.
Desde o meu caminho para a
faculdade ocupava-me em me preparar para o momento em que iria encontrá-lo como
já acontecera de outras vezes antes de chegar ao edifício principal. Estremecia
ante a possibilidade de tornar a se passar o que antes havia sempre sido uma
situação banal. Tentaria disfarçar o quanto havia pensado nele, com o
cumprimento costumeiro e trivial, mas na verdade, sabia que queria mais que
isso. Queria que ele soubesse do meu interesse e, oxalá, que ele se alegrasse
ao percebê-lo, quem sabe confessando que me amara desde o primeiro momento que
me vira e que os nossos encontros nas estações do coletivo ou nas estradas pelo
jardim que dava acesso ao prédio não eram casuais, mas que ele ansiava por isso
e os provocava, esperando que finalmente eu respondesse de uma forma diferente,
como agora se passava.
III.
O encontro esperado não aconteceu
até a seguinte sessão de discussão de trabalhos. Como éramos de anos
diferentes, os horários das nossas matérias não eram coincidentes. Via com
frequência os outros alunos nos intervalos entre as aulas, nas pausas para o
café no bar ao lado do edifício ou nas conversas em roda em torno de um banco
no jardim central.
Naquelas duas semanas, a minha
expectativa em vê-lo fazia perceber uma ausência que antes me era indiferente. Quando
disfarçadamente perguntei à colega, ela me fez saber que só raramente ele saía do
departamento nos intervalos das aulas. Preferia permanecer no gabinete de seu
orientador dedicando-se à leitura ou entregando-se a discussões filosóficas com
um grupo de introvertidos.
Eu nunca tinha sido predisposta a
arrebatamentos amorosos. Até então, todas as minhas paixões haviam sido guiadas
por evidências reais da sua concretização. Não concebia o amor não
correspondido dos poetas românticos, nem a cortesia pelo inalcançável dos
trovadores medievais e muito menos a castidade de um religioso apaixonado.
Surpreendia-me a perder-me em devaneios antes inconcebíveis para uma mulher
prática e emancipada. Imaginava-o como um neurótico inibido a quem eu libertaria
das suas amarras, permitindo a revelação do homem ardoroso que eu entrevira durante
a sua palestra.
A ideia de que ele me corresponderia
era quase certa; eu sofria, no entanto, presumindo uma série de passos
necessários à nossa conjunção. Teria de encontrar as palavras certas e não o afugentar
com a intrepidez da minha decisão.
Na véspera do seminário
quinzenal, ensaiei a abordagem pois que não esperaria a iniciativa dele. A
deixa estaria na própria preparação do meu trabalho, em que consegui incluir
uma citação d’O prazer da leitura. Era uma arriscada e arrojada
estratégia que se revelaria muito apropriada, não fosse um pequeno detalhe.
O QUE TERÁ SIDO DE SHAKESPEARE?
Na infância tudo se passava com uma naturalidade impensável na luta da vida adulta de agora. Ao ingressar no primário, transferiram-me de escola. Anúncios de mudanças como esta, que hoje me causariam ansiedades enormes, eram bem vindas como o prenúncio de novidades infalívelmente venturosas. Pelo contrário, a única aflição possível naquela ocasião vinha de uma voraz vontade de saber. Tinha especialmente uma grande ânsia de aprender a ler e descobrir mais daquele misterioso prazer que ocupava longas horas do tempo que meu pai passava em casa. Outros detalhes da vida escolar não me preocupavam; novos colegas, uma nova professora, uma outra rotina à qual rapidamente me adaptei. Não sei dizer em que tempo ocorreu a mudança íntima que me tornou um tímido e tirou de mim aquela segurança que também era o meu encanto de menino. Logo alcancei ali uma sensação de domínio e familiaridade que facilitava o meu desempenho. A professora era experiente e meiga. Ainda me lembro da forma cuidadosa como explicou que, apesar de lhe chamarmos tia, tinha uma posição e um encargo diferente daquele das irmãs de nossos pais (ela só era efetivamente tia de uma das alunas da sala). Reencontrei alguns colegas da escola antiga, um infantário privado, e conheci novos rostos com trajetórias bem distintas. Era uma escola pública. Na minha pequena cidade, o meu círculo de convivência era até então restrito aos filhos de amigos de meus pais ou às crianças cuja condição social nos aproximava. Muitos estavam ali. As duas meninas por quem fui apaixonado, o amigo que rivalizava a atenção delas comigo, o vizinho com quem desde sempre eu brincara. Conheci o colega sonhador que se via nas histórias fantásticas do cinema; o Vanderlei, rapazinho da Estação que atraía a admiração por copiar do quadro-negro mais rápido que todos; a ruiva Gerusa cujo nome mais me parecia um adjetivo; o menino grandalhão que vinha da zona rural e roncava de boca aberta com a cabeça deitada sobre os braços na carteira. Outros que se tornaram amigos mais chegados depois, e tantos de quem nunca mais tive notícia. Dentre estes, o Shakespeare. Era dos mais baixos da sala, por isso, ficávamos próximos na fila do recreio. Creio que quase não convivíamos fora da escola. Não pertencia ao meu círculo de amigos, mas fotografias testemunham de que esteve em uma das minhas festas de aniversário. Da janela de casa eu via com frequência passar para o bairro além da ponte, a sua mãe gorducha e morena, cuja descontração não deixava dúvida que não era da nossa cidade, de gente ressabiada e silenciosa. Do pai, eu não tinha notícia. Ele tinha o cabelo anelado como o meu, uma das muitas semelhanças que eu não percebia naquele tempo. As feições eram claramente mestiças, e a pele clara, de caboclice furtiva e esfumada. O rosto levemente anguloso, os lábios grossos e uma expressão que denotava bonomia, um constante contentamento apesar dos abusos que sofria, por se chamar Shakespeare e por destino. O seu nome causava uma estranheza que era convertida em zombaria. Desprezo ou troça, era a maneira imediata com que a cidade lidava com tudo o que não reconhecia. Soava-nos como “Sheik”, como os soberanos árabes, que era um nome muito usado para os cães, especialmente os pequenezes iracundos, que eram o frisson da época, repleta de Cheiques pelos quintais. Por isso mesmo, logo ele ganhou o apelido de “Cachorro”. Como imediatamente consentiu e mostrava até certa satisfação com a alcunha, mudou-se a maneira de tentar aborrecê-lo, imitando o ruído de um espirro quando se dizia o seu nome. Ele tinha uma natureza pacífica e não parecia que aquilo lhe causasse perturbação. Era uma época propícia aos ultrajes, em que cada qual já tinha muito cedo a noção do tipo de estatuto que cada ambiente lhe reservava. Quem o defendia das afrontas era a irmã, um pouco mais velha, da série seguinte, a Jacqueline, de pele mais morena e temperamento menos ameno que o do mano. Não me consta que alguém tenha alguma vez nos explicado de onde vinha o seu nome. E mesmo quando soube depois quem foi o dramaturgo inglês, não foi imediata a sua associação com o meu antigo colega, cujo nome continuava me soando como “Cheique”. O que me leva a escrever sobre ele foi um episódio que acaba por revelar um aspecto que só mais tarde pude reconhecer em mim, uma atitude diante do saber que determina grande parte do que fui e sou. Numa ocasião em que o tema da aula eram os animais, a professora ia perguntando a alguns alunos quais animais eles conheciam. Os questionados se esmeravam em listas de animais domésticos e selvagens, sempre procurando não repetir os que já haviam sido citados. Silenciosamente me preparava para o caso de a pergunta chegar a mim, evocando as figuras das enciclopédias que folheava em casa. Mas a questão calhou antes ao Shakespeare. E a sua resposta - “Conheço todos os animais” - causou-me uma surpresa inconformada. Como alguém poderia ter a ousadia de dizer conhecer todos os animais? Aquilo parecia-me um atrevimento tão despropositado... Ao mesmo tempo não podia conceber que a professora tivesse aceitado com tanta prontidão aquele desfecho. Minha indignação converteu-se no desafio de mentalmente imaginar uma espécie impossível para confrontar o meu colega. O assunto da aula mudou, entretanto, antes que eu pudesse irromper. Remoí aquela resposta até anos depois ter a certeza de que se tratava mesmo de um êxito inviável. No ano seguinte, mudaram-me novamente de escola. Perdi o contato com grande parte dos colegas do primeiro ano. Depois que Shakespeare desapareceu, alguém inventou a história de uma briga que nunca houve realmente entre mim e ele. Não sei qual foi a intenção de forjarem aquela animosidade fictícia e besta, talvez algum amigo que queria ter me compensado do déficit de agressividade com que sempre me portei. Teria sido meu único confronto físico na vida, que eu resolvera com um murro certeiro. Aquilo me elevava a uma coragem de ser bruto que eu nunca tivera. Assenti com a farsa, adotei como verdade aquela história, que cheguei a repetir para outras pessoas. Afinal, eu não era tão diferente de Shakespeare e todos precisam de uma certa dose de fabulação e auto-engano para viver.
ENCICLOPÉDIA Na sala, a estante era o item mais espaçoso, a madeira escura, quase negra, ocupando toda a parede. Aquela peça do mobiliário f...
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