terça-feira, 25 de janeiro de 2022

  HISTÓRIA LONGA E INTERMINÁVEL


LIVRO IX – O rio que nunca existiu


 

 

  HISTÓRIA LONGA E INTERMINÁVEL


LIVRO VII – O rio correndo ao revés

Barbeiro Manoel Cardoso Sobrinho - filhas Hortencia, Berenice e Cabrini


Ouça filho, que te leva o rio

 

 

  HISTÓRIA LONGA E INTERMINÁVEL


LIVRO VIII – O sumiço do rio


 

 

  HISTÓRIA LONGA E INTERMINÁVEL


LIVRO VI – O rio suspenso no ar

Trouxeram a notícia do morte

Do homem que morria nos versos

Contaram sua história aos netos, 

bisnetos e tataranetos

de quem cosia esta memória.


Isaura envelheceu,

sempre fora a mulher mais bela,

Não se contentou com o que perdeu,

Recolheu toda a sabedoria 

toda a humanidade que passou por ela

Enquanto viveu. 

Relembrava o passado, tentando resgatar algo 

que porventura lhe tenha escapado naquela recolha.

Lamentava que envelhecer, sobretudo, 

era deixar de ter quem lhe desse respostas

Quem pudesse contar os retalhos

Para coser em sua história.


Ninguém mais se lembrava do dia 

em que o rio se levantou do seu leito, 

as margens ficaram vazias,

o fundo se via todo, sem a refração e os resíduos 

da água que ali corria. 

Estranhavam aquele feito, 

não houve seca, nem míngua,

onde estavam as águas do rio?


Pois ele seguia correndo, 

no ar, seis metros acima do chão.

Desviando-se de ventos e copas de árvores



 

 

  HISTÓRIA LONGA E INTERMINÁVEL


LIVRO V – O tempo em que o rio parou


I

Hoje Jorge pensa na infância como uma época feliz,

Não era assim que me sentia enquanto era criança.

Havia um filtro de desolação em tudo o que acontecia,

Diante de tudo o que experimentava e via.

A sua desgraça de sentir ter tido uma infância feliz

e ter pela vida essa sombra,

a desesperança de que nada

nunca voltará a ser como antes.

 

Os perigos aumentam

Surgem moléstias intratáveis

Cada vez mais incurável

É a cor da minha dor

Desterrados, tivemos que sair às pressas.

 

HISTÓRIA LONGA E INTERMINÁVEL


LIVRO III – Rio de lágrimas


Assim como é impossível descrever

com palavras uma bela pintura

tanto mais transmitir a emoção

que ela propicia.

Como dizer da gente que povoou

um momento especial da vida

do lugar que me habitou

e que ainda mora em mim

como a casa da infância.

A casa da minha vida nunca foi minha.

Sequer era de quem nela morava.

A fachada estreita na avenida disfarçava

o quanto ao comprido era enorme.

Duas janelas para a rua,

de guilhotina à frente,

com portadas que abriam para dentro,

pintadas em cor gelo.

À direita a porta estreita, de duas folhas.

Durante o dia, sempre abertas.

Ao cair a tarde, a portada da esquerda se fechava.

À noite era acessível ao puxar da tramela.

O interior da casa ficava a um passo

de quem por ali passava.

Sobre a porta, a placa que indicava

a casa era uma janela para o mundo,

de onde as vozes se lançavam

para onde se chegavam.

As portas de dentro sempre abertas.

Água fervente no fogão,

um pouco de pó de café derramado sobre a bancada

O cheiro do pote de plástico já gasto.

Duas garrafas térmicas:

Café forte, café fraco,

Sempre doce, muito doce

Dentro de uma bandeja

Com uma lâmina d’água

Contra o ataque das formigas.

Um armário na parede.

A imagem de uma preta de dentes brancos sobre a pia.

Descia-se pelos 3 degraus ao quintal,

Ao lado do quarto do avô

Os nomes escritos no cimento

1968. Os tios adolescentes, o primeiro e o segundo sobrinho.

Chegava-se à horta,

Junto ao muro na divisa com o quintal de dona Matilde,

Um canteiro de madressilvas

Sempre cheirosas,

Ou não seriam madressilvas,

Nunca mais vi daquelas flores

E nem senti o seu perfume

Um plano inclinado suave de cimento,

Ao lado os canteiros da hora,

Junto ao muro de trás, mais flores,

Muitas, que não seu nomear.

No canto, uma parreira estendida

Sobre a rede de arame

Uvas verdes, amargas,

O espaço sombreado,

Úmido, cheio de avencas,

Vasos pendentes com samambaias, chifres de veado,

Fetos brotando nas frestas de cimento.

(Lembro-me de um dia, ela era pequena,

Ofereceu-me o pão que trouxe da cozinha,

Parecia uma pequena bruxa, de pele enrugada,

Recusei e levei um pito da Dinha.)

Sob a casa, visto através da porta de madeira aberta

O porão escuro, misterioso, cheirando a roupa lavada

E ferramentas. Bacias enormes, cestos com pregadores,

Enxadas e um ancinho encostados à parede,

Nas prateleiras de madeira apodrecida,

Dezenas de pás, martelos, serrotes,

Cheirando a ferrugem e zimbro.

Parecia não ter fundo, de tão escuro à frente

Tanto que despertava o pavor de ratos e monstros,

Teias de aranha se formavam nas paredes do meu medo.

Mais um lance de escada, ao pé da rampa,

Chegava-se ao vão quadrado em frente às duas portas

A que dava para o porão, quase sempre aberta

E o portão de lata, fechado com tranca.

Abre-se ao quintal, enormidade,

À vista é um mundo em seu resumo,

À direita uma mureta de ripas de bambu,

Frágeis, mas reforçada pelo mato que cresce à volta,

Ouvem-se ruídos, pássaros, insetos,

Borboletas passam à frente enquanto se caminha,

Sobre o chão de barro batido, folhas de várias formas

Ao longo de todo terreno, várias árvores frutíferas:

Limoeiro, pitangueira, pé de laranja, jabuticaba,

Mamona, outro limoeiro, romã,

abacateiro, quatro mamoeiros, um macho,

mais duas laranjeiras a seguir.

À frente, o barranco, sob as árvores enormes (três mangueiras,

Talvez outro abacateiro), desliza suavemente

Sob uma camada de folhas mortas

em direção ao córrego sujo.

À margem uma fileira de bananeiras,

Como fazendo um anteparo a proteger da queda,

Do cheiro de esgoto.

À direita, separando o quintal da rua, o muro de alvenaria.

E nele, havia um buraco,

Redondo, do tamanho de uma mão fechada,

Quem olharia por ele

Quem será que o criara?


II 

De manhã muito cedo o menino empurra a porta

da cozinha, onde ficara o cão doente,

Quis ter dormido ali com ele.

A porta estanca quando toca o corpo rígido,

Estava morto o cão que tanto amava.

Viu parte do dorso preto e branco

Do bicho que morrera ao pé da porta.

Voltou-se em pratos ao quarto 

Em soluços cheio de dor

de remorso, 

de ter deixado ali sozinho o amigo,

De não ter vigiado para espantar a sua morte.

Tinha velado até tarde da noite,

quando o sono o venceu.

Deixou o animal bem embrulhado numa manta

Na caminha em que dormia 

dentro de casa desde que adoecera.

O seu olhar reivindicava algo 

que não era capaz de adivinhar.

Parece que sentia a falta que faria 

Ao menino, tão miserável, tão sozinho.


Escutou os movimentos do acordar de outras pessoas,

atravessa a sala a mãe chorosa

em direção ao quarto e anuncia:

não deves ir à aula nesse dia.

Também não foi nos dias seguintes,

permanecia inconsolável,

lamentava aquela desgraça,

A perda irreparável do amigo.


Chamavam-no a sair, 

mas o menino não se consentia nenhuma alegria

diante da tristeza que devia àquele 

seu mais verdadeiro amigo...

Ocorreu-lhe perguntar

o que tinham feito ao corpo do cão, 

já sumido.

Como num ato de heroísmo

o pai, que guardava silêncios,

Seco, que fazia questão de demostrar indiferença,

E até debochar de alguns amuos, 

Levara o corpo, com pás e ferramentas,

Abriu-lhe a sepultura e enterrou o cão no campo.

Nos dias que se seguiram,

O pai pôs-se ao lado da sua cama

Permanecia em silêncio

Enquanto o menino chorava

desolado.

Lá fora havia um mundo 

de seres sem compaixão.

 

Rogério acorda cedo e ordenha as vacas,

O leite sai quente das tetas magras,

O líquido gordo e amarelado

Vai para os galões de metal enormes

E daí para a carroça de dois cavalos.

Rogério parte para a cidade,

O seu perfil imponente percorre as ruas,

Sabe exatamente onde para.

Na casa da avenida grita à porta,

E vai entrando familiar

Aspásia o recebe no corredor,

Dica prepara as leiteiras

Das conchas caem de vez a vez

Três litros de leite para aquela casa.

Dica põe o leite a ferver

E segue a lida, oferece o café, que Rogério aceita,

Recusa mas depois aceita e se senta

Enquanto chega Francisco gozador

A chamá-lo galã como os de novela

Dica aumenta a chama

O leite segue no lume

Nininha puxa conversa sobre a chuva

Zé Serafim entra propondo apostas

 Trazem o porco para o abate

  HISTÓRIA LONGA E INTERMINÁVEL


LIVRO IV – O rio de sangue e vísceras


Os perigos aumentam

Surgem moléstias intratáveis

Cada vez mais incurável

É a cor da minha dor

As águas vermelhas

Vertidas em sangue

Correm no leito do rio

Passam coágulos, vísceras,

ventres de mulheres.

Desterrados, tiveram que sair às pressas.

 

Não sinta pena do animal que agoniza,

a compaixão aumenta sua dor,

a sua agonia se prolonga:

O sacrifício do nascer do dia,

O sangue nos olhos

de quem ama.

 

HISTÓRIA LONGA E INTERMINÁVEL


LIVRO I – O vale em que o rio corria

I

Por aqui passava o rio que um dia desapareceu,

ficou a sua impressão na terra.

Com alguma atenção se percebe

o sulco por onde corria;

seguindo as marcas no chão

chega-se aonde ele dava.

 À frente aquelas pedras

o seu curso desviava,

é o lugar onde em menino eu costumava entrar

para nadar em suas águas.

Aquela pedra enorme ficava no meio do rio,

A ela eu me agarrava 

porque ali a corrente

A corrente se fazia 

forte e quase nos arrastava.

 

Há tempos não pisava 

Esta terra de fantasmas,

Todos aqui respondem 

à quase mesma sina

Que é tudo destruir; 

uma ordem 

que emana de lugares 

obscuros.

Desde que aqui se instalou

Este espírito maldito

inquieta os homens

E não permite que nada

os lembre o seu passado.

Não se permite a continuidade de nada que já existe,

Nada se constrói sobre o que há,

Por isso, os nossos antepassados

Não podem voltar às suas casas

Não reconhecem suas ruas

E vagam perdidos

Não têm como sabem onde estão.


Todo o encanto se perde

Numa terra em que o venho

se rende ao novo,

e por ele é dizimado.


A cidade abandona o seu próprio espírito.

Destruído o passado, só convivemos com ruínas

os seus vestígios;

nostálgicos,

órfãos,

apostamos num futuro impossível.

 II

Antes da grande enchente havia ali à frente uma ponte

de concreto e esqueleto de ferro

que ligava as duas partes da cidade.

José, todos os dias,

atravessava a ponte nos seus dois sentidos

Em sua barra circular pesada

Pela manhã ele saía levando a marmita

que a mulher preparara

Arroz, feijão, um bife acebolado 

ou um pedaço de frango,

Legumes cozidos, 

couve ou taioba refogada.

O cheiro ia longe quando abria a tampa

Seu estômago retumbava à hora do almoço.

Ao fim do dia, já com o sol a se pôr por trás do monte

Com o corpo estafado, 

do trabalho, 

da idade,

voltava para o outro lado.

Passavam carros que buzinavam

e carroças puxadas por cavalos,

os carroceiros gritavam o seu nome,

Todos sabiam o que se passava em sua casa.

II

De longe o cumprimenta o amigo

Marciano, construtor de paredes

Que gosta de observar o céu, à noite,

Deitado na rede, sem sua varanda.

Depois de um dia de suor e concreto,

ele constrói outra cidade

em diversos planetas.

Ele sabe que é necessário,

É preciso reconstruir aquela cidade,

Com casas que tenham à frente das suas fachadas

Espaços respiráveis, jardins,

Alpendres frescos para estar no fim do dia

Onde as senhoras possam ver o movimento das ruas

É preciso reedificar casas com quintais,

De terra batida, com canteiros à volta,

Cheios de flores e de hortaliças:

Alfaces, couves, hortelã, cebolinha, malva,

Madressilvas, margaridas e rosas,

Com pomares de árvores cheirosas,

Pitangueiras, mangueiras, eugênias

Que cubram o chão com seu tapete cor de rosa

Com pés-de-mamona para as crianças se atirarem

Em guerras fictícias durante a tarde.

 

III

O filho de Maria quer ser para sempre criança,

Apesar de tanto sofrer,

Pede ao menino jesus de olhos fechados, à noite,

Para nunca, nunca crescer.

Não lhe interessa o mundo dos adultos,

Pais, os amigos, os professores

Não entendem que ele não queira crescer.

IV

 

V

Ele era triste porque sentia que a vida nunca se cumpria

Em frente ao papel em branco

Teria tanto a dizer, mas nunca teve o sossego,

Nunca obteve as palavras adequadas;

Frustrado em sentir que há algo a deixar

Que não se desprende,

Preso a um destino que não se cumpre.

As palavras que tanto se repetem são nunca e o sempre.

O sempre querer, o nunca se cumprir.

 

Não aceito o seu preconceito

O meu povo é lindo

É uma maravilha de tristeza e de alegria

Que não se encontra em outras terras

E sabe fazer coisas belas

 

 

  HISTÓRIA LONGA E INTERMINÁVEL


LIVRO II – A enchente


Naquele ano as chuvas foram intermináveis,

Aqui de longe ouço as suas vozes,

As mulheres à beira da biquinha,

Conversando alto, para abafar o ruído da água,

Que cai ininterrupta, misteriosamente daquela caneta.

Seus meninos gritam e brincam molhados à volta,

Sobem e descem a rampa curva a correr,

Com peitos nus, de calções poídos.

Será a fonte a mesma da água do meu rio?

 

Já tive um lar, uma cidade.

Imagens de tempos perdidos

De onde sou só sabemos falar disso

Do nada que mais não somos,

Do que deixamos de fazer, do que perdemos

Das luzes que se desfazem no céu,

Uma a uma enquanto as árvores se redem por trás dos muros

Hastes de aço e

Agora da lama que cobre o que antes eram pastos.

 

Marizete traz no colo o menino

Filho da mulher que a acolheu

A pedido da avó, dona Rosário,

Lavadeira desde que se entende por gente.

A moça tinha doze anos,

Perdera a mãe e dois dias depois

O pai teve um ataque cardíaco

Morreu de paixão.

Linda saía de casa às cinco

Deixava os filhos seguros em casa

Depois de voltarem da escola

Ia para o botequim à beira da estrada

Onde trabalhava

Linda servia os homens que paravam

Vindos do trabalho, de outros afazeres,

Cada gole servido era outro que engolia

Linda foi esfaqueada numa emboscada

Armada pelo homem que não amava.

Marizete visita a avó, na rua de casas baixas,

E de calçadas elevadas em relação ao nível da rua.

O menino sabe andar, mas se atrapalha naquelas ruas de pedras

Gnaisse azuladas e pontiagudas

Dona Rosário sai de casa e atrás dela vêm os animais que andam soltos

Um cão amarelo, com cara de coitado,

dois patos e uma ema

de pescoço tão comprido,

O menino tem medo de ser bicado e tenta subir nos ombros da moça.

 

Os três sempre juntos

O outro observa como um gozo comum – a bebida o jogo – tornam-nos mais cúmplices do que qualquer outro tipo de amizade que conheça

 

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

 

 HISTÓRIA LONGA E INTERMINÁVEL


Eu queria devolver à minha cidade, 

a suavidade duma modinha 

em formas de versos e de romances.


Que ela voltasse a ser bela,

Por simples e pequenina.


Tentei outras fórmulas 

dentre as que já existem;

nenhuma me permitia 

falar o que deveria. 


Sei contar os versos, 

mas os meus 

não cabem 

em metros. 


Não sei contar histórias porque de onde sou 

elas se atravessam sem cerimônia alguma.

Recolho aqui e ali, inúmeras delas, junto-as, 

Desnudo o coração e tento evitar desmedidas. 


Atiro palavras ao acaso, quem sabe alguma acerte.

Num grande e único longo poema.


LIVRO I – O vale em que o rio corria

LIVRO II – A enchente

LIVRO III – A água benta

LIVRO IV – O rio de sangue e vísceras

LIVRO V – O tempo em que o rio parou

LIVRO VI – O rio suspenso no ar

LIVRO VII – O rio correndo ao revés

LIVRO VIII – O sumiço do rio

 


ENCICLOPÉDIA Na sala, a estante era o item mais espaçoso, a madeira escura, quase negra, ocupando toda a parede. Aquela peça do mobiliário f...