HISTÓRIA LONGA E INTERMINÁVEL
LIVRO IX – O rio que nunca existiu
HISTÓRIA LONGA E INTERMINÁVEL
LIVRO VI – O rio suspenso no ar
Trouxeram a notícia do morte
Do homem que morria nos versos
Contaram sua história aos netos,
bisnetos e tataranetos
de quem cosia esta memória.
Isaura envelheceu,
sempre fora a mulher mais bela,
Não se contentou com o que perdeu,
Recolheu toda a sabedoria
toda a humanidade que passou por ela
Enquanto viveu.
Relembrava o passado, tentando resgatar algo
que porventura lhe tenha escapado naquela recolha.
Lamentava que envelhecer, sobretudo,
era deixar de ter quem lhe desse respostas
Quem pudesse contar os retalhos
Para coser em sua história.
Ninguém mais se lembrava do dia
em que o rio se levantou do seu leito,
as margens ficaram vazias,
o fundo se via todo, sem a refração e os resíduos
da água que ali corria.
Estranhavam aquele feito,
não houve seca, nem míngua,
onde estavam as águas do rio?
Pois ele seguia correndo,
no ar, seis metros acima do chão.
Desviando-se de ventos e copas de árvores
HISTÓRIA LONGA E INTERMINÁVEL
LIVRO V – O tempo em que o rio parou
I
Hoje Jorge pensa na infância como uma época feliz,
Não era assim que me sentia enquanto era criança.
Havia um filtro de desolação em tudo o que acontecia,
Diante de tudo o que experimentava e via.
A sua desgraça de sentir ter tido uma infância feliz
e ter pela vida essa sombra,
a desesperança de que nada
nunca voltará a ser como antes.
Os perigos aumentam
Surgem moléstias intratáveis
Cada vez mais incurável
É a cor da minha dor
Desterrados, tivemos que sair às pressas.
HISTÓRIA LONGA E INTERMINÁVEL
LIVRO III – Rio de lágrimas
Assim como é impossível descrever
com palavras uma bela pintura
tanto mais transmitir a emoção
que ela propicia.
Como dizer da gente que povoou
um momento especial da vida
do lugar que me habitou
e que ainda mora em mim
como a casa da infância.
A casa da minha vida nunca foi minha.
Sequer era de quem nela morava.
A fachada estreita na avenida disfarçava
o quanto ao comprido era enorme.
Duas janelas para a rua,
de guilhotina à frente,
com portadas que abriam para dentro,
pintadas em cor gelo.
À direita a porta estreita, de duas folhas.
Durante o dia, sempre abertas.
Ao cair a tarde, a portada da esquerda se fechava.
À noite era acessível ao puxar da tramela.
O interior da casa ficava a um passo
de quem por ali passava.
Sobre a porta, a placa que indicava
a casa era uma janela para o mundo,
de onde as vozes se lançavam
para onde se chegavam.
As portas de dentro sempre abertas.
Água fervente no fogão,
um pouco de pó de café derramado sobre a bancada
O cheiro do pote de plástico já gasto.
Duas garrafas térmicas:
Café forte, café fraco,
Sempre doce, muito doce
Dentro de uma bandeja
Com uma lâmina d’água
Contra o ataque das formigas.
Um armário na parede.
A imagem de uma preta de dentes brancos sobre a pia.
Descia-se pelos 3 degraus ao quintal,
Ao lado do quarto do avô
Os nomes escritos no cimento
1968. Os tios adolescentes, o primeiro e o segundo sobrinho.
Chegava-se à horta,
Junto ao muro na divisa com o quintal de dona Matilde,
Um canteiro de madressilvas
Sempre cheirosas,
Ou não seriam madressilvas,
Nunca mais vi daquelas flores
E nem senti o seu perfume
Um plano inclinado suave de cimento,
Ao lado os canteiros da hora,
Junto ao muro de trás, mais flores,
Muitas, que não seu nomear.
No canto, uma parreira estendida
Sobre a rede de arame
Uvas verdes, amargas,
O espaço sombreado,
Úmido, cheio de avencas,
Vasos pendentes com samambaias, chifres de veado,
Fetos brotando nas frestas de cimento.
(Lembro-me de um dia, ela era pequena,
Ofereceu-me o pão que trouxe da cozinha,
Parecia uma pequena bruxa, de pele enrugada,
Recusei e levei um pito da Dinha.)
Sob a casa, visto através da porta de madeira aberta
O porão escuro, misterioso, cheirando a roupa lavada
E ferramentas. Bacias enormes, cestos com pregadores,
Enxadas e um ancinho encostados à parede,
Nas prateleiras de madeira apodrecida,
Dezenas de pás, martelos, serrotes,
Cheirando a ferrugem e zimbro.
Parecia não ter fundo, de tão escuro à frente
Tanto que despertava o pavor de ratos e monstros,
Teias de aranha se formavam nas paredes do meu medo.
Mais um lance de escada, ao pé da rampa,
Chegava-se ao vão quadrado em frente às duas portas
A que dava para o porão, quase sempre aberta
E o portão de lata, fechado com tranca.
Abre-se ao quintal, enormidade,
À vista é um mundo em seu resumo,
À direita uma mureta de ripas de bambu,
Frágeis, mas reforçada pelo mato que cresce à volta,
Ouvem-se ruídos, pássaros, insetos,
Borboletas passam à frente enquanto se caminha,
Sobre o chão de barro batido, folhas de várias formas
Ao longo de todo terreno, várias árvores frutíferas:
Limoeiro, pitangueira, pé de laranja, jabuticaba,
Mamona, outro limoeiro, romã,
abacateiro, quatro mamoeiros, um macho,
mais duas laranjeiras a seguir.
À frente, o barranco, sob as árvores enormes (três mangueiras,
Talvez outro abacateiro), desliza suavemente
Sob uma camada de folhas mortas
em direção ao córrego sujo.
À margem uma fileira de bananeiras,
Como fazendo um anteparo a proteger da queda,
Do cheiro de esgoto.
À direita, separando o quintal da rua, o muro de alvenaria.
E nele, havia um buraco,
Redondo, do tamanho de uma mão fechada,
Quem olharia por ele
Quem será que o criara?
II
De manhã muito cedo o menino empurra a porta
da cozinha, onde ficara o cão doente,
Quis ter dormido ali com ele.
A porta estanca quando toca o corpo rígido,
Estava morto o cão que tanto amava.
Viu parte do dorso preto e branco
Do bicho que morrera ao pé da porta.
Voltou-se em pratos ao quarto
Em soluços cheio de dor
de remorso,
de ter deixado ali sozinho o amigo,
De não ter vigiado para espantar a sua morte.
Tinha velado até tarde da noite,
quando o sono o venceu.
Deixou o animal bem embrulhado numa manta
Na caminha em que dormia
dentro de casa desde que adoecera.
O seu olhar reivindicava algo
que não era capaz de adivinhar.
Parece que sentia a falta que faria
Ao menino, tão miserável, tão sozinho.
Escutou os movimentos do acordar de outras pessoas,
atravessa a sala a mãe chorosa
em direção ao quarto e anuncia:
não deves ir à aula nesse dia.
Também não foi nos dias seguintes,
permanecia inconsolável,
lamentava aquela desgraça,
A perda irreparável do amigo.
Chamavam-no a sair,
mas o menino não se consentia nenhuma alegria
diante da tristeza que devia àquele
seu mais verdadeiro amigo...
Ocorreu-lhe perguntar
o que tinham feito ao corpo do cão,
já sumido.
Como num ato de heroísmo
o pai, que guardava silêncios,
Seco, que fazia questão de demostrar indiferença,
E até debochar de alguns amuos,
Levara o corpo, com pás e ferramentas,
Abriu-lhe a sepultura e enterrou o cão no campo.
Nos dias que se seguiram,
O pai pôs-se ao lado da sua cama
Permanecia em silêncio
Enquanto o menino chorava
desolado.
Lá fora havia um mundo
de seres sem compaixão.
Rogério acorda cedo e ordenha as vacas,
O leite sai quente das tetas magras,
O líquido gordo e amarelado
Vai para os galões de metal enormes
E daí para a carroça de dois cavalos.
Rogério parte para a cidade,
O seu perfil imponente percorre as ruas,
Sabe exatamente onde para.
Na casa da avenida grita à porta,
E vai entrando familiar
Aspásia o recebe no corredor,
Dica prepara as leiteiras
Das conchas caem de vez a vez
Três litros de leite para aquela casa.
Dica põe o leite a ferver
E segue a lida, oferece o café, que Rogério aceita,
Recusa mas depois aceita e se senta
Enquanto chega Francisco gozador
A chamá-lo galã como os de novela
Dica aumenta a chama
O leite segue no lume
Nininha puxa conversa sobre a chuva
Zé Serafim entra propondo apostas
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LIVRO IV – O rio de sangue e vísceras
Os perigos aumentam
Surgem moléstias intratáveis
Cada vez mais incurável
É a cor da minha dor
As águas vermelhas
Vertidas em sangue
Correm no leito do rio
Passam coágulos, vísceras,
ventres de mulheres.
Desterrados, tiveram que sair às pressas.
Não sinta pena do animal que agoniza,
a compaixão aumenta sua dor,
a sua agonia se prolonga:
O sacrifício do nascer do dia,
O sangue nos olhos
de quem ama.
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LIVRO I – O vale em que o rio corria
I
Por aqui passava o rio que um dia desapareceu,
ficou a sua impressão na terra.
Com alguma atenção se percebe
o sulco por onde corria;
seguindo as marcas no chão
chega-se aonde ele dava.
o seu curso desviava,
é o lugar onde em menino eu costumava entrar
para nadar em suas águas.
Aquela pedra enorme ficava no meio do rio,
A ela eu me agarrava
porque ali a corrente
A corrente se fazia
forte e quase nos arrastava.
Há tempos não pisava
Esta terra de fantasmas,
Todos aqui respondem
à quase mesma sina
Que é tudo destruir;
uma ordem
que emana de lugares
obscuros.
Desde que aqui se instalou
Este espírito maldito
inquieta os homens
E não permite que nada
os lembre o seu passado.
Não se permite a continuidade de nada que já existe,
Nada se constrói sobre o que há,
Por isso, os nossos antepassados
Não podem voltar às suas casas
Não reconhecem suas ruas
E vagam perdidos
Não têm como sabem onde estão.
Todo o encanto se perde
Numa terra em que o venho
se rende ao novo,
e por ele é dizimado.
A cidade abandona o seu próprio espírito.
Destruído o passado, só convivemos com ruínas
os seus vestígios;
nostálgicos,
órfãos,
apostamos num futuro impossível.
Antes da grande enchente havia ali à frente uma ponte
de concreto e esqueleto de ferro
que ligava as duas partes da cidade.
José, todos os dias,
atravessava a ponte nos seus dois sentidos
Em sua barra circular pesada
Pela manhã ele saía levando a marmita
que a mulher preparara
Arroz, feijão, um bife acebolado
ou um pedaço de frango,
Legumes cozidos,
couve ou taioba refogada.
O cheiro ia longe quando abria a tampa
Seu estômago retumbava à hora do almoço.
Ao fim do dia, já com o sol a se pôr por trás do monte
Com o corpo estafado,
do trabalho,
da idade,
voltava para o outro lado.
Passavam carros que buzinavam
e carroças puxadas por cavalos,
os carroceiros gritavam o seu nome,
Todos sabiam o que se passava em sua casa.
II
De longe o cumprimenta o amigo
Marciano, construtor de paredes
Que gosta de observar o céu, à noite,
Deitado na rede, sem sua varanda.
Depois de um dia de suor e concreto,
ele constrói outra cidade
em diversos planetas.
Ele sabe que é necessário,
É preciso reconstruir aquela cidade,
Com casas que tenham à frente das suas fachadas
Espaços respiráveis, jardins,
Alpendres frescos para estar no fim do dia
Onde as senhoras possam ver o movimento das ruas
É preciso reedificar casas com quintais,
De terra batida, com canteiros à volta,
Cheios de flores e de hortaliças:
Alfaces, couves, hortelã, cebolinha, malva,
Madressilvas, margaridas e rosas,
Com pomares de árvores cheirosas,
Pitangueiras, mangueiras, eugênias
Que cubram o chão com seu tapete cor de rosa
Com pés-de-mamona para as crianças se atirarem
Em guerras fictícias durante a tarde.
III
O filho de Maria quer ser para sempre criança,
Apesar de tanto sofrer,
Pede ao menino jesus de olhos fechados, à noite,
Para nunca, nunca crescer.
Não lhe interessa o mundo dos adultos,
Pais, os amigos, os professores
Não entendem que ele não queira crescer.
IV
V
Ele era triste porque sentia que a vida nunca se cumpria
Em frente ao papel em branco
Teria tanto a dizer, mas nunca teve o sossego,
Nunca obteve as palavras adequadas;
Frustrado em sentir que há algo a deixar
Que não se desprende,
Preso a um destino que não se cumpre.
As palavras que tanto se repetem são nunca e o sempre.
O sempre querer, o nunca se cumprir.
Não aceito o seu preconceito
O meu povo é lindo
É uma maravilha de tristeza e de alegria
Que não se encontra em outras terras
E sabe fazer coisas belas
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LIVRO II – A enchente
Naquele ano as chuvas foram intermináveis,
Aqui de longe ouço as suas vozes,
As mulheres à beira da biquinha,
Conversando alto, para abafar o ruído da água,
Que cai ininterrupta, misteriosamente daquela caneta.
Seus meninos gritam e brincam molhados à volta,
Sobem e descem a rampa curva a correr,
Com peitos nus, de calções poídos.
Será a fonte a mesma da água do meu rio?
Já tive um lar, uma cidade.
Imagens de tempos perdidos
De onde sou só sabemos falar disso
Do nada que mais não somos,
Do que deixamos de fazer, do que perdemos
Das luzes que se desfazem no céu,
Uma a uma enquanto as árvores se redem por trás dos muros
Hastes de aço e
Agora da lama que cobre o que antes eram pastos.
Marizete traz no colo o menino
Filho da mulher que a acolheu
A pedido da avó, dona Rosário,
Lavadeira desde que se entende por gente.
A moça tinha doze anos,
Perdera a mãe e dois dias depois
O pai teve um ataque cardíaco
Morreu de paixão.
Linda saía de casa às cinco
Deixava os filhos seguros em casa
Depois de voltarem da escola
Ia para o botequim à beira da estrada
Onde trabalhava
Linda servia os homens que paravam
Vindos do trabalho, de outros afazeres,
Cada gole servido era outro que engolia
Linda foi esfaqueada numa emboscada
Armada pelo homem que não amava.
Marizete visita a avó, na rua de casas baixas,
E de calçadas elevadas em relação ao nível da rua.
O menino sabe andar, mas se atrapalha naquelas ruas de pedras
Gnaisse azuladas e pontiagudas
Dona Rosário sai de casa e atrás dela vêm os animais que andam soltos
Um cão amarelo, com cara de coitado,
dois patos e uma ema
de pescoço tão comprido,
O menino tem medo de ser bicado e tenta subir nos ombros da moça.
Os três sempre juntos
O outro observa como um gozo comum – a bebida o jogo – tornam-nos mais cúmplices do que qualquer outro tipo de amizade que conheça
HISTÓRIA LONGA E
INTERMINÁVEL
Eu queria devolver à minha cidade,
a suavidade duma modinha
em formas de versos e de romances.
Que ela voltasse a ser bela,
Por simples e pequenina.
Tentei outras fórmulas
dentre as que já existem;
nenhuma me permitia
falar o que deveria.
Sei contar os versos,
mas os meus
não cabem
em metros.
Não sei contar histórias porque de onde sou
elas se atravessam sem cerimônia alguma.
Recolho aqui e ali, inúmeras delas, junto-as,
Desnudo o coração e tento evitar desmedidas.
Atiro palavras ao acaso, quem sabe alguma acerte.
Num grande e único longo poema.
LIVRO I – O vale em que o rio corria
LIVRO II – A enchente
LIVRO III – A água benta
LIVRO IV – O rio de sangue e vísceras
LIVRO V – O tempo em que o rio parou
LIVRO VI – O rio suspenso no ar
LIVRO VII – O rio correndo ao revés
LIVRO VIII – O sumiço do rio
ENCICLOPÉDIA Na sala, a estante era o item mais espaçoso, a madeira escura, quase negra, ocupando toda a parede. Aquela peça do mobiliário f...