domingo, 26 de abril de 2026

 A escola da tia Cici entrou em reforma. Seria construído um anexo à sua casa para abrigar salas que receberiam as turmas do Infantil e do pré-Escolar. Pelos próximos meses iríamos ter as aulas no Instituto Agrícola, em uma vila rural nos arredores da cidade. Recebi a novidade com algum aborrecimento, por me sentir deslocado do que me era conhecido e rotineiro. Eu sempre adorara a escola, a convivência com os colegas, gostava de aprender.

Logo, porém, as viagens de ônibus até a vila tornaram-se um dos momentos mais desfrutados, uma atração a mais. Íamos num veículo que pertencia ao próprio instituto, fretado pela escola. Os motoristas eram sempre conhecidos de alguém, tio de um, vizinho de outro. Toda a turma ia junto, alguns alunos eram apanhados no caminho, mas tínhamos ali a convivência em grupo além do espaço da escola, ao invés da chegada aos poucos das crianças que costumavam vir andando levadas pela mão pelos pais ou empregadas. Das janelas do ônibus, víamos as novidades mais distantes da cidade, os movimentos à beira do asfalto: as construções do bairro novo, o acampamento dos ciganos, acompanhamos a montagem de um circo recém-chegado. Víamos os morros com as casas nos bairros afastados e menos favorecidos, por onde nunca andávamos. Cantávamos e falamos do Zico e de futebol, depois de disputar os lugares preferenciais e as companhias mais queridas para a viagem.
Naquele tempo eu tinha dois colegas que adorava. Já no início da viagem, costumávamos nos acomodar os três apertados nas poltronas que seriam para dois. Esperávamos ansiosos a travessia da avenida principal, o local em que entrava a menina que nós os três gostávamos. Era um amor pacificamente partilhado e ela sabia distribuir igualmente a atenção entre o trio, de modo que nos sentíamos suficientemente retribuídos. Cantávamos para a amada músicas de sucesso na época, de que possivelmente intuíamos o sentido sem propriamente entendê-lo de todo: “…Morena tropicana, eu quero teu sabor… Oi, oi, oi”
No instituto, dispúnhamos de um espaço inédito: as salas estavam em prédios retos e amplos, de mais de um andar, com escadas claras, corrimões e corredores longos que faziam tudo parecer mais ordenado e digno. O pátio do recreio era enorme, tínhamos quadras de cimento liso, campos com muitos metros de extensão de relva e no solo havia aparelhagem para exercícios que só de longe lembrava os parquinhos infantis. No espaço mais amplo do instituto visitámos eventualmente hortas, pastos e criadouros de diversos animais, pequenos e grandes. De todas as experiências desse período, houve uma para mim mais marcante. Um encontro com os alunos de uma escola rural que funcionava na vila próximo dali.
Caminhamos um após o outro em balbúrdia até uma casa baixa de telhado rústico, que possivelmente abrigara um dia uma família, onde agora funcionava a escola. Recebeu-nos à porta a professora, uma mulher ruiva, sardenta e falante, que se parecia a um personagem popular da televisão chamado de Ferrugem. No pequeno cômodo de entrada, de paredes verde-claras com várias rachaduras, havia menos de uma dezena de crianças enfileiradas uma ao lado da outra nos esperando para a recepção. Estavam mudas e tinham os uniformes descompostos – uma com calções de outra cor, outra sem a camisa que os outros usavam – e muitas usavam chinelos em vez de sapatos. Tais diferenças na integridade das vestimentas, a candidez de expressões e os gestos contidos daquelas crianças nos causaram uma espécie de choque, de modo que todo o nosso rebuliço sossegou.
Quase tinham o aspecto mais assustado que o nosso. Lembro-me especialmente de uma menina, cujo nome nunca esqueci e que me chamou a atenção pelo exotismo da sua aparência: ela tinha o cabelo crespo e louro espichado num coque e os olhos, repuxados como de uma japonesinha, davam-lhe um ar de desolação e tristeza. Um mosquito ia e vinha, pousando insistentemente no canto de uma das suas pálpebras, que drapejavam sem que o restante da sua mímica se alterasse.
Não fosse por esses movimentos, aquela cena parecia congelada, para mim desenrolava-se arrastada, como um pesadelo do qual não se pode sair. Aquela imagem da menina despertou em mim uma estranha vergonha e compaixão acompanhados por previsões pouco otimistas acerca de seu destino em contraste com o futuro venturoso que o meu desejo reservava à minha amada.
Guardei para mim pesaroso aqueles pensamentos e a angústia que me acompanhou pelo resto daquele dia, e a vida seguiu na conivência que me era destinada.
Na adolescência, quando tomado por desilusões e outras paixões mais sofridas, quantas vezes desejei que aquela menina reaparecesse, transformada em uma moça altiva e bela, e me resgatasse da minha miséria. Como me daria alento pensar que ela podia ter se tornado mais feliz que eu!

domingo, 19 de abril de 2026

TEXTOS PARA LEMBRAR, POEMAS PARA ESQUECER (E OUTRAS DISTRAÇÕES)

 

Sim, vai, me conta,

Faz de conta

Que só fica o que importa,

A vida morta que você negou.

Conta as lágrimas

Desse rosário imenso

A quem toma em conta

o lamento

quem sabe da vida

os recantos,

Vai seu encanto levar.

Paga sem contar o preço

Do amor, desconta o peso,

Mas atravessa esse mar.

Conta

Toda a dor do seu segredo.

Canta

e faz do riso um amigo,

Conta comigo,

Mesmo se não for preciso.

ENCICLOPÉDIA Na sala, a estante era o item mais espaçoso, a madeira escura, quase negra, ocupando toda a parede. Aquela peça do mobiliário f...