Algumas das memórias mais significativas da minha infância se passaram na época em que fui seu aluno ou na sua escola em 1981-82; algumas que já relatei, como o meu primeiro amor pela menina-bebê Alice, a visita que fizemos à escola rural onde fui tomado de súbita compaixão pela menina de olhos puxados e cabelo louro e crespo, a visita à biquinha durante o "pré" em que fiquei responsável por cuidar do inquieto menino Oto, do "infantil", que veio a se tornar um dos meus amigos mais próximos na adolescência.
Marcou-me especialmente o período da reforma da escola que funcionava em sua casa, em que passamos a estudar na Escola Agrícola - que privilégio ter circulado por aqueles belos edifícios, onde inclusive foi a nossa formatura! Íamos de ônibus. Era em geral um veículo muito velho, com bancos coloridos de assentos bastante desconfortáveis em que sentávamos dois a dois, às vezes três com um pouco mais de vontade, com a direção luxuosa do Totonho ou do Bidica. Saíamos da rua Padre Manoel, passávamos pela avenida, onde subiam algumas alunas: a Flávia, a Kiki, a Natália e a Daniele do dr. Edilberto, a nossa grande paixão. Éramos três os seus namorados - eu, Allan e Robinson - companheiros inseparáveis com os quais a amada dividia igualmente comigo as suas atenções e a sua indiferença. Considerávamo-nos os melhores amigos uns dos outros e dividíamos aquela paixão com a mesma fraternidade com que gostávamos do Zico e do Flamengo. Parece-me que, como eu, um não sentia pelos outros dois qualquer rivalidade naquele assunto. Foi muito mais difícil para mim, na verdade, gerir a nossa dissidência política: enquanto eles torciam pelo Nonô Costa na candidatura à prefeitura, eu torcia para o colega de banco do meu pai, o Toninho Mota, do PMDB, que acabou ganhando e sendo assassinado com dois anos de mandato. Eram as primeiras eleições realizadas durante o processo de redemocratização do Brasil, do que não tínhamos a mínima noção; ou seja, já cresci tendo as eleições como um evento "natural". Mas, nem por isso, foi fácil sustentar a minha posição: eu escondi deles o quanto pude a minha preferência, inclusive cantava com eles a música da campanha do Nonô, muito mais interessante que a do meu candidato: "é PDS, o povo merece" (coitado do povo!).... "Severino da Costa Neto, gente amiga e do coração" (Coração era o apelido do candidato de quem se contava uma anedota: parado por um guarda de trânsito numa ação da polícia de trânsito, ele teria respondido ao pedido de documentos: "Puxa, hoje você deu azar! Esqueci a carteira em casa"). E já que toquei no assunto das eleições municipais, também nunca me saiu da cabeça a versão do sucesso da Gal Costa, "Festa do Interior", para a campanha do José Alfredo.
No caminho pela rodovia à margem da Vila do Sossego e do Gordo, cantávamos esses jingles, mas também o hino do Flamengo e, quando pretendíamos homenagear a nossa amada, as preferidas eram "Morena tropicana" (nem sei o quanto tínhamos a dimensão do seu teor altamente sensual) e os hits da banda Blitz. Uma ocasião ergueu-se a lona de um circo, vista de longe, no terreiro na subida do Rosário. Aos gritos de "olha o circo", a paixão e entusiasmo fez escutar "olha o Zico" e ficamos malucos para chegar à janela e ver o nosso grande ídolo.
Naquele ano realizou-se a copa do mundo de futebol na Espanha, à qual o Brasil levou a sua equipe mágica comandada pelo Telê Santana, razão da primeira da minha longa carreira de experiências com a derrota.
[continua]
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