HISTÓRIA LONGA E INTERMINÁVEL
LIVRO I – O vale em que o rio corria
I
Por aqui passava o rio que um dia desapareceu,
ficou a sua impressão na terra.
Com alguma atenção se percebe
o sulco por onde corria;
seguindo as marcas no chão
chega-se aonde ele dava.
o seu curso desviava,
é o lugar onde em menino eu costumava entrar
para nadar em suas águas.
Aquela pedra enorme ficava no meio do rio,
A ela eu me agarrava
porque ali a corrente
A corrente se fazia
forte e quase nos arrastava.
Há tempos não pisava
Esta terra de fantasmas,
Todos aqui respondem
à quase mesma sina
Que é tudo destruir;
uma ordem
que emana de lugares
obscuros.
Desde que aqui se instalou
Este espírito maldito
inquieta os homens
E não permite que nada
os lembre o seu passado.
Não se permite a continuidade de nada que já existe,
Nada se constrói sobre o que há,
Por isso, os nossos antepassados
Não podem voltar às suas casas
Não reconhecem suas ruas
E vagam perdidos
Não têm como sabem onde estão.
Todo o encanto se perde
Numa terra em que o venho
se rende ao novo,
e por ele é dizimado.
A cidade abandona o seu próprio espírito.
Destruído o passado, só convivemos com ruínas
os seus vestígios;
nostálgicos,
órfãos,
apostamos num futuro impossível.
Antes da grande enchente havia ali à frente uma ponte
de concreto e esqueleto de ferro
que ligava as duas partes da cidade.
José, todos os dias,
atravessava a ponte nos seus dois sentidos
Em sua barra circular pesada
Pela manhã ele saía levando a marmita
que a mulher preparara
Arroz, feijão, um bife acebolado
ou um pedaço de frango,
Legumes cozidos,
couve ou taioba refogada.
O cheiro ia longe quando abria a tampa
Seu estômago retumbava à hora do almoço.
Ao fim do dia, já com o sol a se pôr por trás do monte
Com o corpo estafado,
do trabalho,
da idade,
voltava para o outro lado.
Passavam carros que buzinavam
e carroças puxadas por cavalos,
os carroceiros gritavam o seu nome,
Todos sabiam o que se passava em sua casa.
II
De longe o cumprimenta o amigo
Marciano, construtor de paredes
Que gosta de observar o céu, à noite,
Deitado na rede, sem sua varanda.
Depois de um dia de suor e concreto,
ele constrói outra cidade
em diversos planetas.
Ele sabe que é necessário,
É preciso reconstruir aquela cidade,
Com casas que tenham à frente das suas fachadas
Espaços respiráveis, jardins,
Alpendres frescos para estar no fim do dia
Onde as senhoras possam ver o movimento das ruas
É preciso reedificar casas com quintais,
De terra batida, com canteiros à volta,
Cheios de flores e de hortaliças:
Alfaces, couves, hortelã, cebolinha, malva,
Madressilvas, margaridas e rosas,
Com pomares de árvores cheirosas,
Pitangueiras, mangueiras, eugênias
Que cubram o chão com seu tapete cor de rosa
Com pés-de-mamona para as crianças se atirarem
Em guerras fictícias durante a tarde.
III
O filho de Maria quer ser para sempre criança,
Apesar de tanto sofrer,
Pede ao menino jesus de olhos fechados, à noite,
Para nunca, nunca crescer.
Não lhe interessa o mundo dos adultos,
Pais, os amigos, os professores
Não entendem que ele não queira crescer.
IV
V
Ele era triste porque sentia que a vida nunca se cumpria
Em frente ao papel em branco
Teria tanto a dizer, mas nunca teve o sossego,
Nunca obteve as palavras adequadas;
Frustrado em sentir que há algo a deixar
Que não se desprende,
Preso a um destino que não se cumpre.
As palavras que tanto se repetem são nunca e o sempre.
O sempre querer, o nunca se cumprir.
Não aceito o seu preconceito
O meu povo é lindo
É uma maravilha de tristeza e de alegria
Que não se encontra em outras terras
E sabe fazer coisas belas
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