terça-feira, 25 de janeiro de 2022

HISTÓRIA LONGA E INTERMINÁVEL


LIVRO I – O vale em que o rio corria

I

Por aqui passava o rio que um dia desapareceu,

ficou a sua impressão na terra.

Com alguma atenção se percebe

o sulco por onde corria;

seguindo as marcas no chão

chega-se aonde ele dava.

 À frente aquelas pedras

o seu curso desviava,

é o lugar onde em menino eu costumava entrar

para nadar em suas águas.

Aquela pedra enorme ficava no meio do rio,

A ela eu me agarrava 

porque ali a corrente

A corrente se fazia 

forte e quase nos arrastava.

 

Há tempos não pisava 

Esta terra de fantasmas,

Todos aqui respondem 

à quase mesma sina

Que é tudo destruir; 

uma ordem 

que emana de lugares 

obscuros.

Desde que aqui se instalou

Este espírito maldito

inquieta os homens

E não permite que nada

os lembre o seu passado.

Não se permite a continuidade de nada que já existe,

Nada se constrói sobre o que há,

Por isso, os nossos antepassados

Não podem voltar às suas casas

Não reconhecem suas ruas

E vagam perdidos

Não têm como sabem onde estão.


Todo o encanto se perde

Numa terra em que o venho

se rende ao novo,

e por ele é dizimado.


A cidade abandona o seu próprio espírito.

Destruído o passado, só convivemos com ruínas

os seus vestígios;

nostálgicos,

órfãos,

apostamos num futuro impossível.

 II

Antes da grande enchente havia ali à frente uma ponte

de concreto e esqueleto de ferro

que ligava as duas partes da cidade.

José, todos os dias,

atravessava a ponte nos seus dois sentidos

Em sua barra circular pesada

Pela manhã ele saía levando a marmita

que a mulher preparara

Arroz, feijão, um bife acebolado 

ou um pedaço de frango,

Legumes cozidos, 

couve ou taioba refogada.

O cheiro ia longe quando abria a tampa

Seu estômago retumbava à hora do almoço.

Ao fim do dia, já com o sol a se pôr por trás do monte

Com o corpo estafado, 

do trabalho, 

da idade,

voltava para o outro lado.

Passavam carros que buzinavam

e carroças puxadas por cavalos,

os carroceiros gritavam o seu nome,

Todos sabiam o que se passava em sua casa.

II

De longe o cumprimenta o amigo

Marciano, construtor de paredes

Que gosta de observar o céu, à noite,

Deitado na rede, sem sua varanda.

Depois de um dia de suor e concreto,

ele constrói outra cidade

em diversos planetas.

Ele sabe que é necessário,

É preciso reconstruir aquela cidade,

Com casas que tenham à frente das suas fachadas

Espaços respiráveis, jardins,

Alpendres frescos para estar no fim do dia

Onde as senhoras possam ver o movimento das ruas

É preciso reedificar casas com quintais,

De terra batida, com canteiros à volta,

Cheios de flores e de hortaliças:

Alfaces, couves, hortelã, cebolinha, malva,

Madressilvas, margaridas e rosas,

Com pomares de árvores cheirosas,

Pitangueiras, mangueiras, eugênias

Que cubram o chão com seu tapete cor de rosa

Com pés-de-mamona para as crianças se atirarem

Em guerras fictícias durante a tarde.

 

III

O filho de Maria quer ser para sempre criança,

Apesar de tanto sofrer,

Pede ao menino jesus de olhos fechados, à noite,

Para nunca, nunca crescer.

Não lhe interessa o mundo dos adultos,

Pais, os amigos, os professores

Não entendem que ele não queira crescer.

IV

 

V

Ele era triste porque sentia que a vida nunca se cumpria

Em frente ao papel em branco

Teria tanto a dizer, mas nunca teve o sossego,

Nunca obteve as palavras adequadas;

Frustrado em sentir que há algo a deixar

Que não se desprende,

Preso a um destino que não se cumpre.

As palavras que tanto se repetem são nunca e o sempre.

O sempre querer, o nunca se cumprir.

 

Não aceito o seu preconceito

O meu povo é lindo

É uma maravilha de tristeza e de alegria

Que não se encontra em outras terras

E sabe fazer coisas belas

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

ENCICLOPÉDIA Na sala, a estante era o item mais espaçoso, a madeira escura, quase negra, ocupando toda a parede. Aquela peça do mobiliário f...