HISTÓRIA LONGA E INTERMINÁVEL
LIVRO II – A enchente
Naquele ano as chuvas foram intermináveis,
Aqui de longe ouço as suas vozes,
As mulheres à beira da biquinha,
Conversando alto, para abafar o ruído da água,
Que cai ininterrupta, misteriosamente daquela caneta.
Seus meninos gritam e brincam molhados à volta,
Sobem e descem a rampa curva a correr,
Com peitos nus, de calções poídos.
Será a fonte a mesma da água do meu rio?
Já tive um lar, uma cidade.
Imagens de tempos perdidos
De onde sou só sabemos falar disso
Do nada que mais não somos,
Do que deixamos de fazer, do que perdemos
Das luzes que se desfazem no céu,
Uma a uma enquanto as árvores se redem por trás dos muros
Hastes de aço e
Agora da lama que cobre o que antes eram pastos.
Marizete traz no colo o menino
Filho da mulher que a acolheu
A pedido da avó, dona Rosário,
Lavadeira desde que se entende por gente.
A moça tinha doze anos,
Perdera a mãe e dois dias depois
O pai teve um ataque cardíaco
Morreu de paixão.
Linda saía de casa às cinco
Deixava os filhos seguros em casa
Depois de voltarem da escola
Ia para o botequim à beira da estrada
Onde trabalhava
Linda servia os homens que paravam
Vindos do trabalho, de outros afazeres,
Cada gole servido era outro que engolia
Linda foi esfaqueada numa emboscada
Armada pelo homem que não amava.
Marizete visita a avó, na rua de casas baixas,
E de calçadas elevadas em relação ao nível da rua.
O menino sabe andar, mas se atrapalha naquelas ruas de pedras
Gnaisse azuladas e pontiagudas
Dona Rosário sai de casa e atrás dela vêm os animais que andam soltos
Um cão amarelo, com cara de coitado,
dois patos e uma ema
de pescoço tão comprido,
O menino tem medo de ser bicado e tenta subir nos ombros da moça.
Os três sempre juntos
O outro observa como um gozo comum – a bebida o jogo – tornam-nos mais cúmplices do que qualquer outro tipo de amizade que conheça
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