terça-feira, 25 de janeiro de 2022

  HISTÓRIA LONGA E INTERMINÁVEL


LIVRO II – A enchente


Naquele ano as chuvas foram intermináveis,

Aqui de longe ouço as suas vozes,

As mulheres à beira da biquinha,

Conversando alto, para abafar o ruído da água,

Que cai ininterrupta, misteriosamente daquela caneta.

Seus meninos gritam e brincam molhados à volta,

Sobem e descem a rampa curva a correr,

Com peitos nus, de calções poídos.

Será a fonte a mesma da água do meu rio?

 

Já tive um lar, uma cidade.

Imagens de tempos perdidos

De onde sou só sabemos falar disso

Do nada que mais não somos,

Do que deixamos de fazer, do que perdemos

Das luzes que se desfazem no céu,

Uma a uma enquanto as árvores se redem por trás dos muros

Hastes de aço e

Agora da lama que cobre o que antes eram pastos.

 

Marizete traz no colo o menino

Filho da mulher que a acolheu

A pedido da avó, dona Rosário,

Lavadeira desde que se entende por gente.

A moça tinha doze anos,

Perdera a mãe e dois dias depois

O pai teve um ataque cardíaco

Morreu de paixão.

Linda saía de casa às cinco

Deixava os filhos seguros em casa

Depois de voltarem da escola

Ia para o botequim à beira da estrada

Onde trabalhava

Linda servia os homens que paravam

Vindos do trabalho, de outros afazeres,

Cada gole servido era outro que engolia

Linda foi esfaqueada numa emboscada

Armada pelo homem que não amava.

Marizete visita a avó, na rua de casas baixas,

E de calçadas elevadas em relação ao nível da rua.

O menino sabe andar, mas se atrapalha naquelas ruas de pedras

Gnaisse azuladas e pontiagudas

Dona Rosário sai de casa e atrás dela vêm os animais que andam soltos

Um cão amarelo, com cara de coitado,

dois patos e uma ema

de pescoço tão comprido,

O menino tem medo de ser bicado e tenta subir nos ombros da moça.

 

Os três sempre juntos

O outro observa como um gozo comum – a bebida o jogo – tornam-nos mais cúmplices do que qualquer outro tipo de amizade que conheça

 

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