sábado, 2 de maio de 2026

ENCICLOPÉDIA
Na sala, a estante era o item mais espaçoso, a madeira escura, quase negra, ocupando toda a parede. Aquela peça do mobiliário familiar era a mais imponente, com seu conteúdo formava o conjunto mais vistoso da casa e era muito mais ruidosa do que as pessoas. Eu preferia a ilusão de que as coisas durassem, preferia que ela estivesse lá até hoje. Não está. A sua presença marcou para sempre a minha vida, como se não houvesse outro destino que a busca pelo saber e pela beleza.
Por trás das portas, as caixas com a lembranças de família, as pilhas de álbuns de fotografia, pastas com documentos, incluindo as certidões de matrimônio e de nascimento. Alguma desordem, cadernos, trabalhos de escola dos anos passados. A carta que meu avó escreveu para se despedir (dobrada) e a cópia da que o pai dele escrevera como testamento de vida (emoldurada em vidro).
Nas prateleiras, de um lado, uma fila de LPs dispostos em pé, sob o aparelho de som; o telefone, catálogos, um manual de eletricidade e outro de mecânica de carros. Algumas coleções de livros: obras completas de Érico Veríssimo, Jorge Amado, Machado de Assis; “Grandes obras da literatura universal”; volumes de ensino de inglês para crianças.
E, enchendo quase todo o espaço, elas; lindas e enormes, as esfíngicas enciclopédias. ‘Exitus’, de Ciências, ‘Delta-Júnior’, cheia de ilustrações curiosas, a terrível ‘Medicina & Saúde’, e a ‘Barsa’, a mais extensa com seus dezesseis volumes altos, com aquelas lombadas vermelhas, desafiadoras, a pura maravilha que, eu acreditava, continha todo o conhecimento do mundo.
BARSA 1967
Havia um volume extra sobre aquele ano. Chuvas e enchentes pelo país. Em fevereiro uma pedra rolou morro abaixo e destruiu dois edifícios em Laranjeiras. Minha mãe contava. Havia presenciado o acontecimento registrado na enciclopédia. Estava na casa da tia, no Rio de Janeiro. Aos dezesseis, não permitiram que fosse à festa de quinze anos num dos prédios destruídos naquela noite de temporal. Mais de trezentas vítimas, incluindo a debutante e convidados. Horas de angústia sem notícias dos familiares, sirenes e gritos na rua General Glicério. Havia imagens naquele volume. O único que não gostava de folhear. Três anos depois, ela se casava. Por pouco, eu não teria existido.
EFEBO: Era mais que uma entrada, uma viagem excêntrica a um conceito incompreensível, uma visão naquela época rara: um corpo masculino com toda nudez à mostra, a foto de uma estátua grega com legenda e ao lado o texto que explicava que na Antiguidade os homens respeitados desejavam os homens jovens. Não era um qualquer mancebo, parecia uma imagem da virgem às avessas, pois por trás da candura, da aparente frieza calcária do mármore, ela despertava em mim uma inquietude febril e proibida. Eu a via repetidas vezes, temeroso que alguém percebesse, ou de que a marca da repetição na página me denunciasse. Havia uma sonoridade doméstica naquela atípica palavra, eu relia e não entendia bem o que representava a estranha personagem, apenas constatava o poder atrativo que tinha.

FUSOS HORÁRIOS: Parecia um pouco confuso, o globo terrestre fatiado em gomos. Como uma mexerica a girar em seu próprio eixo, à luz do abajur quente e imenso do sol, alternando a claridade e o lusco-fusco. O dia nasce antes no Oriente, a noite daqui é a manhã no outro extremo. No momento antes do sono, quando a realidade da solidão me abatia, ser o único homem de olhos abertos; era esse o medo que eu tinha. Às vezes, temporariamente me consolava algum ruído de gente vindo da rua, um assovio, um grito, ou da cozinha, um copo sendo enchido d'água. A Terra girava e isso não era nada. O que importava então que eu não estava mais tão sozinho; havia sempre alguém de olhos abertos e eu não era o único no mundo a estar desperto.
GÊISERES: Busquei-os por um trabalho de escola. Jatos de água fervente que brotam em intervalos contínuos do solo em esguichos perigosos, bizarro e curioso espetáculo, capaz de matar um homem. Evidência do além da existência do caldeirão infernal de magma do centro da terra; canais do demônio, primos dos vulcões ativos, mas menos familiares, que eu nunca veria, no Chile ou na distante Islândia. Ciências da natureza ou geografia, a mistura que se fazia era eu estar completamente neles. Provava parte de seu calor nas saunas e nunca perdi a esperança de encontrá-los quando cavava o quintal de casa, como também aspirava achar algum tesouro, escondido por um pirata.
SERES ABISSAIS: Era uma descoberta impressionante. Na profundidade dos oceanos, a existência inalcançável de regiões completamente escuras, onde animais estranhíssimos viviam. Como fantasmas, a única luz que conhecem é a que seus próprios corpos emitem. Abajures no reverso negrume da face da terra escondida do sol. Bioluminescência. Muito abaixo de onde chegam os submarinos, aquelas criaturas de aspecto monstruoso pareciam muito mais ameaçadoras do que as feras e os dinossauros já extintos. Estampadas na página as imagens de bocas viscosas enormes, dentes finos como espinhos, espetos saindo das nadadeiras e fios elétricos de pesca, iscas de luz que atraem presas para a sua insaciável fome. Para que os olhos que só podem enxergar a escuridão? Mostrei para meu amigo, que nunca deles havia ouvido falar. Como eram fascinantes, como são temíveis as distantes sempre estranhas outras formas de vida.

CÚMULOS: Corpos fofos, maciços suaves suspensos no azul do absurdo; copas claras decepadas das árvores que eu desenhava, acúmulo de contornos sobre contornos, redondos formatos mutantes, quanto mais céu se vê ao fundo, tanto mais brancos. Desfaz-se um mistério do alto, da morada dos anjos nunca vistos ao objeto que existe, com a forma que não se apanha. Inauguram-se outros mistérios, de um complicado ciclo além da vida: da umidade dos meus poros à superfície dos mares os vapores que sobem, do calor da terra que arrefece na frígida abóbada: os milagres da condensação, o desafio à lei da maçã, gotas a levitar, grande leviatã que se move no ar. Ainda que esteja também no líquido das minhas células, quisera alcançar seu núcleo e estar no meio delas nalguma viagem aérea. (Ver também Cirros, Estratos, Nimbos).

OS ASTROS: Havia a abóbada escura e as constelações, o paraíso da Bíblia e dos poetas. Por outro lado, havia o mundo novo dos corpos celestes — luas, sois e planetas. Descobri-o menino, no plano das páginas. Viajava horas a fio, fui astronauta por meses. De aniversário veio uma luneta. Via então a superfície rugosa da lua, a sua brancura perolada. Marte, vermelho, pequeno, aparecia já noite alta. Vénus vinha antes, brilhante, ao fim da tarde. Dez anos: o Halley passaria pela Terra. Um frenesi corria naquela idade.
Ainda hoje não acredito — nunca cheguei a ver o cometa.

O ATLAS DE ANATOMIA - Havia coisas a fazer com o corpo; descobri-lo como um tema de estudo. Esquadrinhá-lo desde fora, camada por camada, até o seu centro. O lado da frente, o que vemos, na primeira página; um homem adulto, em folhas plásticas, estampadas.
FIcava no final do último volume. Uma a uma, rebatidas, as páginas revelavam o que era o homem por dentro. Por baixo da pele, as cores. O vermelho dos músculos, a figura robótica, ainda meio viva. Os olhos eram os mesmos, mas ficavam assustadores, enormes sem as pálpebras. O pouco branco dos tendões, fáscias e ênteses, como rendas nas bordas de almofadas.
Eu seguia os nomes, em latim, majoritariamente intuíveis, e estranhava o anômalo acúmulo de consoantes na 'larynx'. As lâminas transparentes se seguiam, as cores tornavam-se variadas, veias azuis, artérias sanguíneas, grandes vasos; os decalques saltavam nas páginas; pulsava o coração nas vistas.
Os órgãos internos, personagens de um conto, os gêmeos pulmões limpos (e outros afetados pela fumaça); o circuito interno do alimento, o esôfago longo, o fole do estômago, as muitas voltas das tripas e o intestino grosso, felpudo e ornado de curvas, moldura do abdome e do esotérico omento.
A beleza da assimetria interna revelando o engano das aparências. À esquerda, o fígado, a víscera imperial, violácea gelatina, íntimo das visões da cozinha; por baixo a vesícula verde e perigosa. Do lado oposto, o sóbrio baço, como um par que não combina, e o pâncreas se insinuando por trás, espiga lânguida de enzimas.
Mais uma página, no oco do fundo, os feijões dos rins com cobertura (um mais alto que o outro) e os dois canais em um "v" arredondado até a bexiga. Ao lado o recorte lateral na genitália, o canal por dentro do pênis pendente, tendo por baixo o bornal, com um ovo.
Na página seguinte, só a solidão dos ossos, madrepérola, o esqueleto. O crânio que usavam para representar a vanidade da vida nos quadros. Dentes, côndilos, reentrâncias. Era o desfecho macabro.
Não se retratava o dorso, o reverso que não vemos.
Mas depois, ainda havia a mulher. O corpo mais rechonchudo, menos camadas a esbater; destaque aos órgãos internos. Aqui a simetria perfeita no ventre, trompas pincelando os ovários, a pera invertida do útero e a uretra cortada pela frente, bem como o canal da vagina. Na página seguinte, o abdome gravídico exposto, um bebê completo, em avançado estado de gestação.
Eram as imagens que mentalmente repetia, e tentava reproduzir em desenhos, cada órgão separado em uma página, num caderno. Daquela época a ideia de me tornar médico. Curar o corpo, quando o seu esplendor era a minha doença.

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