O priminho mais novo só aceitava o bolo no prato, para comer de garfo. Não pegava com a mão. Espantados, admirávamos aquela excentricidade. Minha tia achava lindo, embora aquele não fosse um hábito na nossa família. Aprendeu com o pai; gente da capital, de tratos mais refinados. Quando vinham de férias traziam coisas diferentes, gomas com formato de bola, balas com sabor de fruta rasteira, brinquedos novos, gírias e manias. Gostava de conhecer as novidades, mas com aquilo eu não me conformava. Não conhecia prazer maior que aquele domínio: o bolo na travessa, sobre a bancada da cozinha. Nem dali se tirava a primeira faca que o cortara. Coberto com o pano. Tudo pronto, operação facilitada; bastava passar, cortar um pedaço de tamanho na medida da fome ou da esganação do momento. Segurá-lo fofinho na mão. Abocanhar a fatia com dentes macios e lábios polpudos, esticando o pescoço para apanhar todo o esfarelo na boca. Interpor um instrumento àquele ato tão deliciosamente banal era matar o seu prazer ao meio. O normal era os forasteiros da cidade se ajustarem à nossa vida provinciana. Rua às portas sempre abertas, pouca vigilância e regras. De roupas velhas, pés descalços, eles ficavam mais sujos que nós ao fim do dia, esbaldados de liberdade. Sempre havia sido assim. O pequeno subvertera o costume. Gostava de ficar em casa, todo limpinho, em frente ao sofá vendo televisão. Mal despregava os olhos da tela, cara de abobado, todo mansinho de cabelo arrumado para o lado. Nem o sapato tirava. E agora essa, a do bolo. Tentamos convencê-lo. Ele que acostumava. Que nada! Vinha com o bolo para a sala segurando as bordas do prato das duas mãos, o garfinho preso no polegar esquerdo. Minha mãe defendeu o sobrinho. Era mesmo mais higiênico. As mãos, por mais que lavadas, tinham micróbios que iam dar à comida tocada, e daí para o guto adentro, causar doenças. O menino arregalou os olhos. “Micróbios?!?” A descrição do organismo invisível e a pequena narrativa de seu trajeto das mãos à boca e daí para dentro do corpo despertou nele uma enorme impressão. Apavorado, o menininho buscava reordenar o seu mundo subitamente perturbado. Então, havia inimigos perigosos por todo o lado? em toda e qualquer superfície que se tocasse? na própria superfície do corpo? Estávamos constantemente ameaçados de invasões invisíveis e mortíferas? Como se defender de ameaças tão terríveis? O seu desespero era tão visível e angustiante, que ele disparava aquela série de perguntas numa sequência rápida e desesperada, que nos despertou uma malícia irresistível. Tripudiamos. Descrevemos todas as doenças que conhecíamos, com os seus detalhes mais escabrosos e escatológicos, dedos que se soltavam de mãos leprosas, bolos de vermes entupindo a passagem pelos intestinos, causando caganeiras intermináveis que esvaziavam todo o sangue até a pessoa ficar seca, insetos que inoculavam germes que iam para o cérebro e causavam tremor e febres capazes de derreter os miolos. Por mais que minha mãe tentasse minimizar e desmentir os nossos exageros, cada vez mais transtornado o menino se mostrava. Quis ir imediatamente para o banho, nas horas seguintes recusava tudo o que lhe oferecíamos, não tocava os brinquedos e nem mesmo no sofá se sentava para assistir a TV. Continuava com as indagações exasperadas, que agora já respondíamos de forma mais atenuada, sem que essa nossa mudança fosse capaz de tranquilizá-lo. O estrago estava feito. Levamos, claro, uma grande sova e estivemos nos próximos dias cuidando para que aquela situação fosse esquecida pelo menininho, cheios de pena e remorsos pela nossa inconsequente desforra.
sábado, 2 de maio de 2026
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