sábado, 2 de maio de 2026

 O QUE TERÁ SIDO DE SHAKESPEARE? 

 Na infância tudo se passava com uma naturalidade impensável na luta da vida adulta de agora. Ao ingressar no primário, transferiram-me de escola. Anúncios de mudanças como esta, que hoje me causariam ansiedades enormes, eram bem vindas como o prenúncio de novidades infalívelmente venturosas. Pelo contrário, a única aflição possível naquela ocasião vinha de uma voraz vontade de saber. Tinha especialmente uma grande ânsia de aprender a ler e descobrir mais daquele misterioso prazer que ocupava longas horas do tempo que meu pai passava em casa. Outros detalhes da vida escolar não me preocupavam; novos colegas, uma nova professora, uma outra rotina à qual rapidamente me adaptei. Não sei dizer em que tempo ocorreu a mudança íntima que me tornou um tímido e tirou de mim aquela segurança que também era o meu encanto de menino. Logo alcancei ali uma sensação de domínio e familiaridade que facilitava o meu desempenho. A professora era experiente e meiga. Ainda me lembro da forma cuidadosa como explicou que, apesar de lhe chamarmos tia, tinha uma posição e um encargo diferente daquele das irmãs de nossos pais (ela só era efetivamente tia de uma das alunas da sala). Reencontrei alguns colegas da escola antiga, um infantário privado, e conheci novos rostos com trajetórias bem distintas. Era uma escola pública. Na minha pequena cidade, o meu círculo de convivência era até então restrito aos filhos de amigos de meus pais ou às crianças cuja condição social nos aproximava. Muitos estavam ali. As duas meninas por quem fui apaixonado, o amigo que rivalizava a atenção delas comigo, o vizinho com quem desde sempre eu brincara. Conheci o colega sonhador que se via nas histórias fantásticas do cinema; o Vanderlei, rapazinho da Estação que atraía a admiração por copiar do quadro-negro mais rápido que todos; a ruiva Gerusa cujo nome mais me parecia um adjetivo; o menino grandalhão que vinha da zona rural e roncava de boca aberta com a cabeça deitada sobre os braços na carteira. Outros que se tornaram amigos mais chegados depois, e tantos de quem nunca mais tive notícia. Dentre estes, o Shakespeare. Era dos mais baixos da sala, por isso, ficávamos próximos na fila do recreio. Creio que quase não convivíamos fora da escola. Não pertencia ao meu círculo de amigos, mas fotografias testemunham de que esteve em uma das minhas festas de aniversário. Da janela de casa eu via com frequência passar para o bairro além da ponte, a sua mãe gorducha e morena, cuja descontração não deixava dúvida que não era da nossa cidade, de gente ressabiada e silenciosa. Do pai, eu não tinha notícia. Ele tinha o cabelo anelado como o meu, uma das muitas semelhanças que eu não percebia naquele tempo. As feições eram claramente mestiças, e a pele clara, de caboclice furtiva e esfumada. O rosto levemente anguloso, os lábios grossos e uma expressão que denotava bonomia, um constante contentamento apesar dos abusos que sofria, por se chamar Shakespeare e por destino. O seu nome causava uma estranheza que era convertida em zombaria. Desprezo ou troça, era a maneira imediata com que a cidade lidava com tudo o que não reconhecia. Soava-nos como “Sheik”, como os soberanos árabes, que era um nome muito usado para os cães, especialmente os pequenezes iracundos, que eram o frisson da época, repleta de Cheiques pelos quintais. Por isso mesmo, logo ele ganhou o apelido de “Cachorro”. Como imediatamente consentiu e mostrava até certa satisfação com a alcunha, mudou-se a maneira de tentar aborrecê-lo, imitando o ruído de um espirro quando se dizia o seu nome. Ele tinha uma natureza pacífica e não parecia que aquilo lhe causasse perturbação. Era uma época propícia aos ultrajes, em que cada qual já tinha muito cedo a noção do tipo de estatuto que cada ambiente lhe reservava. Quem o defendia das afrontas era a irmã, um pouco mais velha, da série seguinte, a Jacqueline, de pele mais morena e temperamento menos ameno que o do mano. Não me consta que alguém tenha alguma vez nos explicado de onde vinha o seu nome. E mesmo quando soube depois quem foi o dramaturgo inglês, não foi imediata a sua associação com o meu antigo colega, cujo nome continuava me soando como “Cheique”. O que me leva a escrever sobre ele foi um episódio que acaba por revelar um aspecto que só mais tarde pude reconhecer em mim, uma atitude diante do saber que determina grande parte do que fui e sou. Numa ocasião em que o tema da aula eram os animais, a professora ia perguntando a alguns alunos quais animais eles conheciam. Os questionados se esmeravam em listas de animais domésticos e selvagens, sempre procurando não repetir os que já haviam sido citados. Silenciosamente me preparava para o caso de a pergunta chegar a mim, evocando as figuras das enciclopédias que folheava em casa. Mas a questão calhou antes ao Shakespeare. E a sua resposta - “Conheço todos os animais” - causou-me uma surpresa inconformada. Como alguém poderia ter a ousadia de dizer conhecer todos os animais? Aquilo parecia-me um atrevimento tão despropositado... Ao mesmo tempo não podia conceber que a professora tivesse aceitado com tanta prontidão aquele desfecho. Minha indignação converteu-se no desafio de mentalmente imaginar uma espécie impossível para confrontar o meu colega. O assunto da aula mudou, entretanto, antes que eu pudesse irromper. Remoí aquela resposta até anos depois ter a certeza de que se tratava mesmo de um êxito inviável. No ano seguinte, mudaram-me novamente de escola. Perdi o contato com grande parte dos colegas do primeiro ano. Depois que Shakespeare desapareceu, alguém inventou a história de uma briga que nunca houve realmente entre mim e ele. Não sei qual foi a intenção de forjarem aquela animosidade fictícia e besta, talvez algum amigo que queria ter me compensado do déficit de agressividade com que sempre me portei. Teria sido meu único confronto físico na vida, que eu resolvera com um murro certeiro. Aquilo me elevava a uma coragem de ser bruto que eu nunca tivera. Assenti com a farsa, adotei como verdade aquela história, que cheguei a repetir para outras pessoas. Afinal, eu não era tão diferente de Shakespeare e todos precisam de uma certa dose de fabulação e auto-engano para viver.

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