sábado, 2 de maio de 2026

 

Prazer, Proust

I

I
Não havia reparado no rapaz até quando ele começou a falar de Proust. Dávamos início aos seminários anuais e, a partir do momento em que a palavra lhe foi dada, tudo nele se transformou, como um animal acanhado que se eriçasse e exibisse as mais belas penas durante a corte. O seu entorno adquiriu uma atmosfera nova, como se um halo de claridade o envolvesse, ou se algum encanto houvesse de repente tornado mais interessante a sua figura, mais viva a sua presença e, até mesmo as suas vestes, mais belas e suntuosas.
Enquanto ele falava, parecia que todo o ambiente se tornara obscuro, restante, só a sua flama importava. Da sua boca as palavras saíam suaves, mas contundentes, causando calafrios instantâneos quando fazia pausas antes das citações lidas com uma dramaticidade judiciosamente medida. Os seus lábios se movimentavam com uma vagareza, quase não se moviam, no entanto, as palavras saíam nítidas, como uma melodia de ave canora que alentava, causando-me um entorpecimento que comecei a julgar embaraçoso, especialmente quando o ouvia pronunciar as sílabas mais agudas.
Sequer podia perceber sobre o que falava, escutando aquele canto enquanto as suas mãos se movimentavam à frente do tronco, alternando-se uma e outra, firmes, em um bailado mirífico e absorvente.
Escondi os meus braços sob a mesa para que ninguém percebesse as variações da minha pele, que parecia ter sido tomada de súbito de uma torrente gélida, estremecendo em arrepios.
Até então, detestava a baixeza daquele fascínio pela cultura francesa que predominava no nosso meio, chegava mesmo a recusar a usar a lingua, evitando os estrangeirismos prevalentes no campo em que nos dedicávamos, privilegiando transpor para o português os termos que utilizava, sempre que possível, aproveitando toda a ocasião para demonstrar o meu desagrado com a atitude indigna da maioria. Por isso mesmo, eu escolhera como tema do meu trabalho uma obra local. Afinal, mesmo um famoso crítico já dissera, se não somos nós próprios a se debruçar sobre os nossos valores, quem mais se proporá a fazê-lo?
Apesar de intensa, parecia-me que toda aquela impressão de desfaria a qualquer momento. Conclui que ela duraria enquanto durasse a sua fala; porém, terminada a sua participação, eu segui perturbada, custava-me prestar atenção à fala dos outros colegas, só pensava em ir à casa e iniciar imediatamente a leitura para mim inédita de Proust.

II

Supunha que aquele nome familiar integrasse a estante de livros da biblioteca da casa dos meus pais. Não estava de todo equivocada. Havia um volume de Os prazeres e os dias, antigo, de capa dura, de uma editora extinta. Não era aquele que me interessava. A obra a que o trabalho do colega se referia era Em busca do tempo perdido, um calhamaço dividido em sete volumes na biblioteca pública que frequentava.

Queria avançar o máximo que conseguisse na leitura até a próxima sessão quinzenal em que discutiríamos os nossos trabalhos. Não cheguei à metade do primeiro volume. A cada longa frase a minha atenção se desviava a imaginar que espécie de reações lhe teria causado. A paixão daquele rapaz que a princípio me pareceu tão sem interesse tinha causado em mim uma tal impressão que não podia evitá-la. Todo o meu mundo passou a orbitar em torno dele.

Desde o meu caminho para a faculdade ocupava-me em me preparar para o momento em que iria encontrá-lo como já acontecera de outras vezes antes de chegar ao edifício principal. Estremecia ante a possibilidade de tornar a se passar o que antes havia sempre sido uma situação banal. Tentaria disfarçar o quanto havia pensado nele, com o cumprimento costumeiro e trivial, mas na verdade, sabia que queria mais que isso. Queria que ele soubesse do meu interesse e, oxalá, que ele se alegrasse ao percebê-lo, quem sabe confessando que me amara desde o primeiro momento que me vira e que os nossos encontros nas estações do coletivo ou nas estradas pelo jardim que dava acesso ao prédio não eram casuais, mas que ele ansiava por isso e os provocava, esperando que finalmente eu respondesse de uma forma diferente, como agora se passava.

III.

O encontro esperado não aconteceu até a seguinte sessão de discussão de trabalhos. Como éramos de anos diferentes, os horários das nossas matérias não eram coincidentes. Via com frequência os outros alunos nos intervalos entre as aulas, nas pausas para o café no bar ao lado do edifício ou nas conversas em roda em torno de um banco no jardim central.

Naquelas duas semanas, a minha expectativa em vê-lo fazia perceber uma ausência que antes me era indiferente. Quando disfarçadamente perguntei à colega, ela me fez saber que só raramente ele saía do departamento nos intervalos das aulas. Preferia permanecer no gabinete de seu orientador dedicando-se à leitura ou entregando-se a discussões filosóficas com um grupo de introvertidos.

Eu nunca tinha sido predisposta a arrebatamentos amorosos. Até então, todas as minhas paixões haviam sido guiadas por evidências reais da sua concretização. Não concebia o amor não correspondido dos poetas românticos, nem a cortesia pelo inalcançável dos trovadores medievais e muito menos a castidade de um religioso apaixonado. Surpreendia-me a perder-me em devaneios antes inconcebíveis para uma mulher prática e emancipada. Imaginava-o como um neurótico inibido a quem eu libertaria das suas amarras, permitindo a revelação do homem ardoroso que eu entrevira durante a sua palestra.

A ideia de que ele me corresponderia era quase certa; eu sofria, no entanto, presumindo uma série de passos necessários à nossa conjunção. Teria de encontrar as palavras certas e não o afugentar com a intrepidez da minha decisão.  

Na véspera do seminário quinzenal, ensaiei a abordagem pois que não esperaria a iniciativa dele. A deixa estaria na própria preparação do meu trabalho, em que consegui incluir uma citação d’O prazer da leitura. Era uma arriscada e arrojada estratégia que se revelaria muito apropriada, não fosse um pequeno detalhe.

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