Prazer, Proust
I
II
Supunha que aquele nome familiar
integrasse a estante de livros da biblioteca da casa dos meus pais. Não estava
de todo equivocada. Havia um volume de Os prazeres e os dias, antigo, de
capa dura, de uma editora extinta. Não era aquele que me interessava. A obra a
que o trabalho do colega se referia era Em busca do tempo perdido, um
calhamaço dividido em sete volumes na biblioteca pública que frequentava.
Queria avançar o máximo que
conseguisse na leitura até a próxima sessão quinzenal em que discutiríamos os
nossos trabalhos. Não cheguei à metade do primeiro volume. A cada longa frase a
minha atenção se desviava a imaginar que espécie de reações lhe teria causado.
A paixão daquele rapaz que a princípio me pareceu tão sem interesse tinha
causado em mim uma tal impressão que não podia evitá-la. Todo o meu mundo
passou a orbitar em torno dele.
Desde o meu caminho para a
faculdade ocupava-me em me preparar para o momento em que iria encontrá-lo como
já acontecera de outras vezes antes de chegar ao edifício principal. Estremecia
ante a possibilidade de tornar a se passar o que antes havia sempre sido uma
situação banal. Tentaria disfarçar o quanto havia pensado nele, com o
cumprimento costumeiro e trivial, mas na verdade, sabia que queria mais que
isso. Queria que ele soubesse do meu interesse e, oxalá, que ele se alegrasse
ao percebê-lo, quem sabe confessando que me amara desde o primeiro momento que
me vira e que os nossos encontros nas estações do coletivo ou nas estradas pelo
jardim que dava acesso ao prédio não eram casuais, mas que ele ansiava por isso
e os provocava, esperando que finalmente eu respondesse de uma forma diferente,
como agora se passava.
III.
O encontro esperado não aconteceu
até a seguinte sessão de discussão de trabalhos. Como éramos de anos
diferentes, os horários das nossas matérias não eram coincidentes. Via com
frequência os outros alunos nos intervalos entre as aulas, nas pausas para o
café no bar ao lado do edifício ou nas conversas em roda em torno de um banco
no jardim central.
Naquelas duas semanas, a minha
expectativa em vê-lo fazia perceber uma ausência que antes me era indiferente. Quando
disfarçadamente perguntei à colega, ela me fez saber que só raramente ele saía do
departamento nos intervalos das aulas. Preferia permanecer no gabinete de seu
orientador dedicando-se à leitura ou entregando-se a discussões filosóficas com
um grupo de introvertidos.
Eu nunca tinha sido predisposta a
arrebatamentos amorosos. Até então, todas as minhas paixões haviam sido guiadas
por evidências reais da sua concretização. Não concebia o amor não
correspondido dos poetas românticos, nem a cortesia pelo inalcançável dos
trovadores medievais e muito menos a castidade de um religioso apaixonado.
Surpreendia-me a perder-me em devaneios antes inconcebíveis para uma mulher
prática e emancipada. Imaginava-o como um neurótico inibido a quem eu libertaria
das suas amarras, permitindo a revelação do homem ardoroso que eu entrevira durante
a sua palestra.
A ideia de que ele me corresponderia
era quase certa; eu sofria, no entanto, presumindo uma série de passos
necessários à nossa conjunção. Teria de encontrar as palavras certas e não o afugentar
com a intrepidez da minha decisão.
Na véspera do seminário
quinzenal, ensaiei a abordagem pois que não esperaria a iniciativa dele. A
deixa estaria na própria preparação do meu trabalho, em que consegui incluir
uma citação d’O prazer da leitura. Era uma arriscada e arrojada
estratégia que se revelaria muito apropriada, não fosse um pequeno detalhe.
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